segunda-feira, 2 de março de 2015

Novos exércitos

Eu não sei quanto a vocês, mas se tem uma coisa que me preocupa seriamente com relação ao futuro do Brasil é o aparecimento da ideia de “exércitos” que não são o Exército Brasileiro, cujo patrono é o Duque de Caxias (e que está semi-sucateado).

Não só porque a ideia de um exército dificilmente se desvincularia do conceito de uma guerra. Há quem diga permanentemente que ja estamos em franca guerra civil e que o tráfico está plantando as sementes de um “exército do tráfico”. Certa vez li em algum lugar que traficantes estavam usando fazendas compradas com dinheiro da droga para treinar os moleques no uso dos armamentos pesados comprados de fabricantes de todo o mundo, e que entram no Brasil muito facilmente pelas nossas porosas (convenientemente?) fronteiras, principalmente com o Paraguai.
É impressionante o nível do armamento que se encontra nos morros

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Tenho um amigo que foi recentemente ao Paraguai e me contou de sua surpresa ao ser puxado pelo braço de rua em rua por homens que lhe perguntavam se ele queria comprar uísque, viagra ou armas.
Até então, os mecanismos de repressão ao tráfico do Estado, que eram as polícias militar e civil e suas unidades de elite (Bope e Core) tinham a vantagem de lidar com um monte de bandido que mal sabia manipular o armamento que eles tinham em mãos. Mas no momento em que o trafico se articula ao ponto de dar treinamento padrão Al qaeda para seu exército, é um sinal de que a coisa está indo mal.
Fica ainda pior, quando o ex-presidente Lula, tomado pela cachaça (sem trocadilhos com a doença do cara) de falar para as massas começou a agitar o povo dizendo que o PT iria para o enfrentamento deliberado e a coisa ia ficar feia quando o Stédile botasse o exército dele nas ruas.
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Para que não me acusem de ser midia golpista, aqui esta o trecho do discurso de um ex-presidente da república, que não parece se dar conta da liturgia necessária ao cargo que ocupa na história desse país:
Há um problema fundamental quando uma autoridade – que inegavelmente um presidente que saiu com 80% de aprovação popular representa – qualifica um movimento social tipo o movimento dos sem terra, como um “Exército” sob seu controle e de seus asseclas. O povo acredita nisso. Os sem terra se sentem valorizados, esquecendo que viraram uma massa de manobra para os interesses de certos grupos, e passama se comportar como um exército literalmente, considerando inclusive que terão as bênçãos do governo brasileiro para colocarem para quebrar, seguindo o mantra do presidente do PT no RIo, Washington Quaquá, que até foi acionado judicialmente pelo Ministério Público depois de pregar “porrada” contra seus adversários.
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Aliás, prontamente atendido como ilustram as fotos do dia do discurso do Lula no Rio:
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MANIFESTANTES SE ENFRENTAN POR CASO DE CORRUPCIÓN EN PETROBRÁS EN RÍO DE JANEIRO

A cena de pessoas uniformizadas descendo a porrada nos opositores parece bem emblemática e coerente com a ideia de que o PT diante dos problemas em que os seus governos meteram o país, pretendem lutar para não largar o osso na literalidade da porradaria. Diante desse cenário a ideia de exército do MST do Stédile é um tanto quanto assustadora. Estranhamente, o PT toma justamente o lugar, repetindo os atos de quem eles tanto criticaram em sua história.
A ideia de um exército de pessoas armados com paus, facões e foices (só pra ficar nas armas brancas) e usá-lo para ameaçar quem se opõe ao governo – o mesmo que banca esses caras com guaraná e pão com mortadela, freta ônibus para levá-los aos locais de conflito – é assustadora por si, mas ganha contornos ainda mais preocupantes quando vemos que há toda uma máquina ideológica construída para doutrinar criancinhas lá na base.  E que curiosamente, é um método bem similar ao que foi feito pelo Hitler e pelo Islã, onde a doutrinação começa de berço.
UNiformizados e com revistinhas e livretos voltados para eles, a juventude do MST se porta como uma facção paramilitar
Uniformizados e com revistinhas e livretos voltados para eles, os “Semterrinha do MST” se portam como uma facção paramilitar com gritos de guerra e tudo mais.

É no mínimo curioso, que embora o MST não seja nenhuma organização oficial, ou empresa, que tenha meios produtivos ou parque industrial instalado, a organização tem recebido milhões do BNDES e também do PT.  Há quem sustente que Stédile esteja negociando com a Venezuela o treinamento de membros do MST em guerrilha urbana, para mais tarde, operar nos moldes do exército paralelo que controla o jogo político na Venezuela. Inicialmente essas ideias me pareciam muito improváveis, mas hoje, já não sei de mais nada.
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Lideranças se comportam como militares e rola até uma abóbada de aço!
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Assim, quando Lula chama o MST de exército, pode ser mais do que só uma das muitas babaquices que o Lula fala. Pode ser um ato falho que revela como o PT enxerga o potencial do MST.
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Claro que é impossível ter certeza de qualquer coisa neste Brasil Polarizado de hoje, que lembra o dilema do vestido, para alguns está uma merda, para outros está muito bom. Mas é inegável que Lula os classificou como “exército” e eles de fato tem se comportado de modo extremamente organizado.
Também é um fato inegável que o Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO) instaurou inquérito civil para apurar um suposto recrutamento ilegal de crianças e adolescentes brasileiros pelo governo da Venezuela.
Segundo o órgão, eles seriam levados para serem doutrinados a atuar na chamada “revolução bolivariana”.
Voc~e pode não acreditar no papeo de crianças sendo treinadas, mas aqui temos uma foto de Stédile, o dono do "exército" abraçado com Maduro.
Você pode não acreditar no papo de crianças sendo treinadas na Venezuela, mas aqui temos uma foto de Stédile, o dono do “exército” segundo o Lula, abraçado com Maduro.
A ação contra a União é assinada pelo procurador da República Ailton Benedito. Ele diz que tomou a medida baseando em notícias veiculadas pela imprensa brasileira de que o vice-presidente setorial do Desenvolvimento do Socialismo Territorial da Venezuela e titular do Ministério das Comunas, Elías Jaua, leva adolescentes brasileiros para o país desde 2011.
No inquérito, consta ainda uma notícia veiculada no site do governo venezuelano de que 26 crianças e adolescentes participaram do treinamento no estado de Sucre das chamadas “Brigadas Populares de Comunicação”, com o intuito de moldá-los como “futuros jornalistas para servir o país”.
“Temos que saber em que condições, quem levou e quem autorizou a ida dessas pessoas até a Venezuela. Abrimos o inquérito justamente para apurar em que circunstâncias isso ocorreu, qual a idade dos envolvidos, de onde são e qual a real quantidade deles”, disse Benedito ao G1. fonte
O uso de crianças e adolescentes em conflitos armados, é hoje uma das grandes mazelas na América do Sul. Mas não só aqui. O drama é conhecido nas guerrilhas do Oriente Médio e África, e o uso de meninos imberbes usando metralhadoras é crescente em todo o mundo.
Exército sub-15 na Colômbia
Exército sub-15 na Colômbia
Recentemente, governos vizinhos, como a Colômbia, Peru e Paraguai registram casos de sequestros e resgate de crianças de adolescentes em fuga do recrutamento forçado para guerrilha e ações  paramilitares. Há relatos de menores infiltrados até nas FORÇAS ARMADAS REGULARES.
Isso é uma excrescência bizarra que não vejo ninguém noticiando, ainda não entendi bem o porque. O fato é que crianças hoje são arrancadas de suas famílias e levados para áreas remotas de fazendas, onde são submetidos a treinamento militares com armas pesadas e a doutrinamento ideológico por radicais que podem ser tanto de esquerda quanto de direita. Ninguém é santo na atual situação das coisas.
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Esses meninos, quando conseguem escapar, são obrigados a viver escondidos por programas de inserção social ou em abrigos de fundações internacionais que oferecem ajuda em zonas de conflito, porque o medo real é a morte por vingança da “deserção”.Além de serem tradicionalmente encontradas nas fileiras das Farcs, a prática de usar “niños, niñas y adolescentes” é relatada também em outros grupos em guerra. Na Colômbia, há relatos de casos no ELN (Exército de libertação Nacional) e  milícias contra-revolucionárias, os temidos esquadrões paramilitares, como as Bacrim ( Bandas Criminales).No Peru, a Guerra política e ideológica, a favor e contra, abastece as redes sociais da internet com vídeos de meninos e meninas com idades em torno de 10 anos gritando palavras de ordem contra o “imperialismo” e defendendo a “revolução comunista”, o projeto de conquista do poder do Sendero Luminoso, braço radical do Partido Comunista Peruano, que voltou com força total depois de quase ser extinto nos  anos 2000. Ainda de perto, vem o Paraguai com a Força Tarefa Conjuta (FTC), agrupamento especial do Exército e Polícia Nacional.  As famílias de adolescentes de 15, 16 e 17 anos presos ou abatidos nos tiroteios com o Exército do povo Paraguaio (EPP) podem ser vistas à cores a poucos quilômetros da fronteira com o Brasil.Como as farcs também os paramilitares estão gradualmente admitindo o uso de menores nos seus exércitos. É o caso da Autodefesa Unida da Colômbia, AUC, milícia onde diversos de seus comandantes paramilitares admitiram a existência de menores em suas tropas.

COMO SE NÃO FOSSE MERDA SUFICIENTE, VEM AÍ O EXÉRCITO RELIGIOSO DO EDIR MACEDO

Já circulam na internet muitos vídeos impressionantes, que mostram muitos jovens marchando fardados e em posição de ordem em um templo religioso de uma igreja evangélica. No vídeo, eles recebem comandos de um suposto bispo da igreja, e respondem “o altar” a perguntas como “o que é que vocês querem?”. Até a representação de um ‘escudo militar’ com a sigla G.A (Gladiadores do Altar) é utilizada pelo grupo.
"Exército religioso" no Brasil. Isso não é impressionante?
“Exército religioso” no Brasil. Isso não é impressionante?
Muitas pessoas estão começando agora a se preocupar com uma possível ‘ditadura evangélica’ no Brasil.
Segundo algumas pessoas, a criação de um exército religioso sob comando de um grupo limitado de pastores da Igreja Universal teria semelhança com o Estado Islâmico, cujas práticas principais são dominar o mundo e aniquilar todas as religiões que não sejam a deles.
Não duvido que o plano estratégico do Edir Macedo seja treinar esses caras e efetivamente fazer um exército, mas para garantir a integridade das igrejas dele no Oriente. Sabe-se que muitas igrejas evangélicas foram destruídas pelos Muçulmanos em conflitos. Na Líbia, principalmente. Sem ter governo para recorrer, a solução viável seria constituir sua própria milícia, tal como fez a Máfia Colombiana nos anos 80, afim de assegurar os seus “negócios” com a cocaína.
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Hoje Gladiadores do Altar. Amanhã o Bope da Universal…
Mas uma vez construído seu próprio “exército”, ele te dá poder. E fica a dúvida sobre como seria exercido este poder religioso no Brasil. Sobretudo num país onde lideres religiosos gozam de tamanho prestígio que tem passaporte diplomático, canais de Tv, alguns são acusados de aproximação perigosa com o narcotráfico e todos eles não pagam nenhum tostão de imposto sobre as montanhas de dinheiro arrecadadas diariamente de seus fiéis.
À sombra dos grupos intolerantes que vão adquirindo cada vez mais poder, constroem bancadas no governo e até financiam políticos, há uma sensação gradual de insegurança que se espalha no país.
Hoje pode ser só mais uma papagaiada da Igreja que cria replica da Arca da Aliança, constrói imitação do Templo de Salomão e cujo líder máximo é um cara que já foi até preso por estelionato… Mas amanhã, será que essa “inovação” será controlável? Será que não estamos alimentando as primeiras células de um câncer que tragará este país?
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As imagens dos idiotas religiosos destruindo estátuas Assírias de 8000 anos nos museus do Iraque chocou o mundo, mas pouco se fala nas ações deliberadas de grupos religiosos que pregam a intolerância, e seguindo suas próprias ideias, invadem e destroem outros templos religiosos, como igrejas católicas e em um expressivo número de casos, terreiros de umbanda.
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Você acha muito diferente o fato de um evangélico doutrinado a achar que somente a religião dele é a certa se convencer que deve destruir todos os símbolos das demais religiões e o sujeito do Estado Islâmico que resolve destruir os símbolos antigos da civilização mesopotâmica? Eu acho que são coisas diferentes sim, mas elas tem um elo em comum, que é a estupidez.

NUNCA DUVIDE DA CAPACIDADE HUMANA PARA A ESTUPIDEZ.

Voltando à questão dos Exércitos religiosos desse país, qual será a medida do controle dessas pessoas se eles começarem a usar o poder financeiro e quase ilimitado das religiões que pululam no Brasil para impor seu sistema de crenças na base da porrada?
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Cenas do Exército religioso da Universal

Cenas do congresso Nazista em Nuremberg, 1938.
Cenas do congresso Nazista em Nuremberg, 1938.
Há uma assustadora semelhança, não acha?
Todas as vezes que alguém conclamar as pessoas a “Lutar em Nome de Deus”, pode esperar, que cedo ou tarde, vai dar merda. E do mesmo jeito, o risco de converter militância em milícia é enorme, e dará o mesmo malcheiroso resultado.
Nas fileiras do Exército do PT estão alguns membros imigrantes de outros países.
Nas fileiras do Exército do PT estão alguns membros imigrantes de outros países, como o Haiti. Suspeito?
Os exércitos estão se formando. Isso é um fato. No que isso vai dar, eu não sei, mas não parece boa coisa.
Uma ideia que apita direto na minha cabeça é que ao longo de todos esses quase quarenta anos de Brasil, toda vez que eu pensei “agora não pode mais piorar”, piorou, e muito. Via www.mundogump.com.br

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Drone faz imagens incríveis da gigantesca torre de Tesla em teste na Rússia

Drone capturou imagens incríveis do experimento (Foto: Reprodução)
Distante cerca de 40 quilômetros a oeste de Moscou, uma estrutura gigantesca e futurista chama a atenção em meio à neve e aos pinheiros que compõem a paisagem local: ali, cientistas trabalham no Centro de Pesquisa de Geradores de Alta Voltagem Marx e Tesla. Baseada na tecnologia inventada por Nikola Tesla nos últimos anos do século XIX e também no gerador desenvolvido pelo alemão Erwin Marx alguns anos mais tarde, a estação seria capaz de gerar enormes quantidades de energia elétrica.
De acordo com uma TV russa, a eletricidade gerada no local é equivalente à produção de todas as outras matrizes energéticas do país, incluindo termoelétricas, hidroelétricas, nuclear, solar e eólica - todas combinadas. Só que este pico não se sustenta por mais de 100 microssegundos, de acordo com o site RT. Os pesquisadores agora se esforçam para tentar superar esta limitação.
Confira imagens aéreas da torre em funcionamento feitas por um drone:

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Cidade Brasileira Onde a Herança dos Confederados Norte-americanos Ainda Vive

                                                                                                         fevereiro 9, 2015

Num dia de primavera do ano passado, perto de um antigo cemitério rural no sudeste do Brasil, um cara negro chamado Marcelo Gomes segurava as pontas de uma bandeira confederada norte-americana para uma foto de celular. Depois da foto, Gomes disse que não via problema em prestar homenagem à história dos Estados Confederados da América. "A cultura norte-americana é uma cultura linda", ele disse. Alguns de seus amigos tinham sangue confederado.
Gomes e mais dois mil brasileiros estavam festa anual da Fraternidade Descendência Americana, a irmandade de descendentes de confederados no Brasil, num terreno próximo à cidade de Americana, colonizada por desertores do sul dos EUA 150 anos atrás. O cemitério geralmente fica vazio, fora o zelador e poucos devotos atraídos por sua capela de tijolos. Mas na manhã de abril da festa, um sistema de som público tocando a canção de batalha confederada "Stonewall Jackson's Way" interrompia o silêncio do cemitério. Brasileiros de chapéu "ten-gallon" e jaquetas de couro se cumprimentavam.
Por vários quilômetros ao redor do cemitério, o sol batia nos campos de cana-de-açúcar, plantados por milhares de confederados que rejeitaram a Reconstituição e fugiram dos EUA depois da Guerra Civil – um exílio voluntário que a história norte-americana quase apagou completamente. Essa diáspora espalhada tem se reunido anualmente há 25 anos. A festa que eles realizam, com fundos do governo local, é uma reunião de família dos confederados, um dos últimos enclaves restantes dos filhos do sul não reconstruído.
As pessoas passavam por uma bandeira dos rebeldes com a máxima sulista: Herança, Não Ódio; fazendo fila numa barraquinha para trocar seus reais pela moeda da festa, notas impressas confederadas de US$ 1. (A taxa de câmbio era de 1:1 – a economia sulista norte-americana aparentemente sobreviveu.) Crianças corriam para a cama elástica e o pula-pula inflável. Os mais velhos se protegiam nas sombras de tendas brancas. Logo, a fila do frango frito ficou quase longa demais para tentar.
Sob uma das tendas, fiquei beliscando o frango frito e observando uma garota loira manobrar um enorme vestido com a bandeira confederada para sentar numa cadeira. Fiquei imaginando o que ela achava do símbolo. Ela se apresentou como Beatrice Stopa, uma repórter da Glamour Brasil. Sua avó, Rose May Dodson, comanda a fraternidade confederada. Ela disse que dançava na festa desde criança.
Perguntei se ela sabia que havia uma ligação entre escravidão e o sul norte-americano. "Nunca ouvi isso antes", ela disse. Ela não sabia exatamente por que seus ancestrais tinham saído dos EUA. "Sei que eles vieram. Não sei exatamente o porquê", ela disse. "É por causa do racismo?" Ela sorriu, envergonhada. "Não conta pra mim, vó!"
O Brasil aboliu a escravidão em 1888, mais de duas décadas depois do final da Guerra Civil Americana. Apesar dos esforços progressivos para apagar isso desde então, o país sofre para se livrar da instituição. O governo aprovou legislações fortalecendo a proteção aos trabalhadores, incluindo uma emenda constitucional de 1940 proibindo empregadores de submeter funcionários a "condições análogas à escravidão". Mas enquanto o país se desesperava para se modernizar no começo do século 20, proprietários rurais passaram a coagir empregados assalariados e mantê-los em cativeiro. Recentemente, inspetores do governo encontraram trabalhadores presos por débito em carvoarias de Goiás, trabalhadores haitianos que morreram nos canteiros de obras da Copa do Mundo e imigrantes bolivianos em fábricas clandestinas no centro de São Paulo.
E a cidade construída pelos confederados foi pega nessa rede. Em 22 de janeiro de 2013, o Ministério do Trabalho orquestrou uma batida em Americana. Os funcionários do Ministério encontraram imigrantes bolivianos fabricando roupinhas de bebê sob o teto e supervisão de chefes bolivianos. O Ministério Público fechou a fábrica, e no processo que se seguiu, as condições em que os bolivianos viviam foram consideradas execráveis o suficiente para constituir escravidão.
De todas as pessoas com quem falei no festival de Americana, nenhuma tinha ouvido falar de escravidão em sua cidade.
Quase todo mundo veio para a festa vestido como norte-americano – jeans e botas, camisetas do Johnny Cash e camuflagem. Visitantes se acotovelavam em frente a uma barraca de lembranças sulistas: aventais, colchas, copos comemorativos, um exemplar gasto da Autobiografia de Malcolm X. Uma voz amplificada convidou a multidão a ocupar seus lugares no palco principal – uma laje de concreto com uma bandeira pintada e as palavras XXVI FESTA CONFEDERADA. O prefeito de Santa Bárbara d'Oeste, uma cidade próxima, cumprimentou seus eleitores e deu às boas-vindas aos representantes do estado na audiência. "É a primeira vez que tenho a honra de estar aqui como prefeito", ele sorriu, se inclinando sobre o microfone enquanto descendentes de saiotes e uniformes confederados caseiros seguravam bandeiras atrás dele. "Mas já estive aqui muitas vezes como espectador, como fã." As bandeiras de São Paulo, Texas, EUA e dos confederados balançavam languidamente com a brisa. "A imigração norte-americana ajudou a construir nossa região, ajudou a construir Santa Bárbara d'Oeste, ajudou a construir a cidade de Americana", ele proclamou. "É isso que celebramos hoje."
Em geral, os milhares de texanos, alabamos e georgianos que navegaram até Cuba, México e Brasil fracassaram. Eles criaram cidades e começaram plantações condenadas em lotes na floresta tropical. Em 1918, seu número tinha diminuído o suficiente para merecer estudo etnográfico, e a American Geographical Society despachou pesquisadores para estudar suas vidas.
Mas não em Americana. Liderada por um coronel do Alabama, seus colonos introduziram o algodão e transformaram a cidade numa potência têxtil. Por gerações seus filhos falaram inglês com sotaque. Hoje a cidade de 200 mil habitantes conta com a maior arquibancada de arena de rodeio da América Latina. A festa é um grande orgulho da cidade.
Caras vestidos de soldados lideraram a multidão no hino nacional: um deles tocou "Taps" desafinadamente no trompete. Nos EUA, reuniões como essa culminam numa encenação de batalha, mas esses confederados oferecem uma festa mais amena, com apresentações de dança encabeçadas por uma celebridade barbuda local, Johnny Voxx, que com seu chapéu preto, óculos escuros, calça de couro com franjas e botas de cowboy parecia mais um herói de western espaguete.
"Isso é quase perfeito... É isso que queremos. Não misture nada político. Eu gosto de negros." – Philip Logan
Me passando seu cartão de visitas, Voxx disse que tinha pesquisado no Google antes de agendar o show confederado. "Estudei para saber se as pessoas aqui eram racistas ou não", ele disse. "Mas como eles dizer 'Herança, não ódio'. Eu não estaria aqui se isso fosse uma festa para celebrar o racismo." Ele tropeçava no inglês – o pouco que sabia tinha aprendido com música e assistindoBonanza – e eu fiquei imaginando como seria sua interpretação de música country. Mas quando ele cantou "Cotton Fields", a multidão vibrou. Sua entonação era perfeita – o homem cantava igual a Hank Williams.
Eu não conseguia parar de mencionar as contradições históricas – para Voxx, para os descendentes, para um grupo local que tinha formado um clube de filmes western semanal. Mas ninguém parecia tão desconfortável quanto eu. "Nosso preconceito é muito pequeno comparado com o de outros povos", me disse Pedro Artur Caseiro, membro do clube de cinema. Perguntei o que ele mais gostava nos westerns. Ele sorriu, sonhador, estufou o peito e colocou a mão sobre sua espada de madeira. "O bem sempre vence o mal", ele disse. "É isso que se perdeu hoje, parece que as pessoas não acreditam mais no bem."
Sulistas de verdade – entusiastas dos confederados – também fizeram a peregrinação. Andando pelo cemitério em seu uniforme, Philip Logan, um ator de encenações da Guerra Civil alto e gorducho de Centreville, Virginia, inspecionava as lápides: Ferguson, Cullen, Pyles. Nascimento: Texas. Morte: Brasil.
Acompanhado da namorada, uma brasileira usando bonnet e sombrinha que ele conheceu na internet, Logan exalou. "Isso é quase perfeito", ele disse. "É isso que queremos. Não misture nada político. Eu gosto de negros." Como um membro ativo dos Sons of Confederate Veterans, ele diz que há uma constante exploração de sua herança. "Há muito animosidade", ele disse. "Aqui, as pessoas veem a bandeira confederada e ninguém se importa. Se eu levantasse uma bandeira russa, ninguém daria a mínima."
Na entrada da festa, dois seguranças musculosos revistavam as pessoas, verificando braços e pescoços contra quatro folhas xerocadas com 42 símbolos supremacistas em português – a SS, a cruz de ferro, a suástica, KKK. Eles tinham sido instruídos a barrar qualquer um usando esses símbolos. Isso foi um problema nos anos anteriores.
Enquanto a festa ia acabando e os participantes voltavam para o campo onde os carros estavam estacionados, perguntei a Érico Padilha, um não descendente local, o que ele achava da conexão dos confederados com a escravidão. "Não gosto da ideia, comemorar algo sobre o sul, por causa da escravidão. Realmente não gosto", ele disse. "Mas a festa aqui não tem a ver com política, acho. É algo cultural."
Os confederados vieram para o Brasil por uma série de razões – seus filhos ainda discutem sobre o porquê. O Brasil estava tentando há anos alcançar o desenvolvimento agrícola dos norte-americanos e europeus, e o imperador Dom Pedro II viu nesses sulistas descontentes uma oportunidade de importar a prosperidade norte-americana. Ele criou agências de informação por todo o Sul dos EUA e ofereceu passagens subsidiadas para qualquer norte-americano interessado em emigrar. Anúncios em jornais oferecendo navios fretados apareciam quase todo dia, assim como editoriais zombando do plano, e os confederados aproveitaram a oportunidade de terras baratas onde construir novas plantações, fantasiando sobre restaurar a economia que eles viam desmoronar nos EUA. O que seria possível porque o Brasil iria permitir que eles continuassem com seus escravos.
Mesmo tendo proibido o tráfico de escravos no meio dos anos 1800, o Brasil demorou a banir a escravidão por completo. Os sulistas não conseguiriam produzir algodão a preços competitivos sem eles, e tanto os confederados quanto Dom Pedro sabiam disso. Mesmo antes da Guerra Civil, os sulistas já realizavam conferências sobre mudar a escravidão do país. Assim que eles emigraram, oficiais importantes confederados mexeram os pauzinhos para comprar fazendas operacionais já equipadas com seus próprios escravos. Algodão e tabaco não se davam bem no solo brasileiro, mas plantações estabelecidas como café, laranja e cana-de-açúcar cresciam.
Mas as relações de raça no Brasil chocaram os confederados o suficiente para mandar muitos imigrantes de volta para os EUA. "Os negros, que alguns admitem que um dia serão iguais a nós, já ocupam os principais e mais honrados caminhos na sociedade", um mineiro escreveu sobre o Brasil naGalveston Tri-Weekly, depois de cotar terras no país. Ele acrescentou: "Enquanto os brancos temem que um dia eles depositem seus votos na mesma urna que nós, aqui eles não apenas votam, mas fazem leis – leis que governam os brancos que vivem aqui".
"Tão clara foi a aversão deles", escreveu o descendente Eugene Harter em A Colônia Perdida da Confederação, "que em 1888, quando um senador que fazia oposição à escravidão foi assassinado às vésperas da abolição no Brasil, os confederados foram os primeiros suspeitos". O público, no entanto, pensava diferente. O folclore diz que multidões se reuniram para comemorar em frente ao palácio onde a princesa Isabel estava assinando a abolição, duas décadas depois do fim da Guerra Civil Americana.
"Nunca tivemos uma guerra no Brasil por causa da escravidão", me disse João Leopoldo Padoveze, um confederado cujos ancestrais foram escravos. Como muitos, ele diz que a abolição foi pacífica porque o Brasil nunca teve um problema com racismo. O conceito do Brasil como uma "democracia racial" tem moldado a identidade cultural do país há décadas, um ponto de orgulho nacional. O sociólogo Gilberto Freyre cunhou o termo depois de testemunhar um homem ser linchado quando era estudante em Jim Crow South. Horrorizado, ele voltou para casa com uma apreciação recém-descoberta por seu país como um lugar onde etnias se misturavam livremente.
Mas mesmo que o Brasil tenha um racismo ao menos diferente, a escravidão continuou. Proprietários de terra, incluindo confederados com fazendas, contrataram trabalhadores remunerados para substituir seus escravos. Esses trabalhadores, por sua vez – trabalhadores rurais pobres – têm sido substituídos por uma força de trabalho que inclui dezenas de milhares de escravos, muitos deles imigrantes, que vivem no Brasil hoje.
Foi só nos anos 70 que ativistas rurais montaram centros de resgate para trabalhadores fugitivos e começaram a coletar histórias num esforço para erradicar a prática. Eles apresentaram suas descobertas – evidências de milhares de trabalhadores brasileiros cujo abuso e cativeiro tinham sido sistematicamente tolerado pelo estado – à Organização Internacional do Trabalho, e em 1995 a OIT declarou o Brasil em desacato com sua própria constituição.
Movido pela vergonha, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez um famoso discurso no rádio naquele verão. "Em 1888, a princesa Isabel assinou a famosa Lei Áurea, que deveria ter acabado com o trabalho escravo neste país", ele disse. "Eu disse 'deveria' porque, infelizmente, isso não acabou." O Brasil criaria uma força-tarefa para encontrar e punir a escravidão em todas as indústrias. Nas duas décadas seguintes, o governo autuou companhias internacionais, como a Zara, e libertou 47 mil trabalhadores definidos legalmente como "escravos".
As "operações de inspeção secretas", como um folheto da OIT as chama, do Brasil são algumas das mais rigorosas do mundo. O Brasil tem reconhecido publicamente e se comprometido a reparar os abusos de trabalho de um modo que poucos outros ousaram. Em junho passado, por exemplo, um ativista ganhou uma batalha de 15 anos para aprovar uma emenda constitucional: o estado pode agora desapropriar a terra de negócios e fazendas encontradas usando escravidão – uma pena impensável nos EUA.
Beatrice Stopa, uma descendente confederada e repórter da Glamour Brasil.
Num escritório bege em Campinas, o inspetor trabalhista João Baptista Amâncio empurrou uma pilha de arquivos sobre escravidão em Americana sobre a mesa para mim. Uma batida tinha acabado num grande, e raro, sucesso. O escritório de Amâncio seguiu um caso até o topo da cadeia de fornecimento e multou em US$ 95 mil as Lojas Americanas. Apesar das operações antiescravidão no Brasil serem algumas das maiores, encerrar um caso com sucesso é um processo lento e árduo. As condições precisam ser flagrantes.
Amâncio, um burocrata de fala mansa usando tênis Reebok e calça cáqui, vasculhou a fábrica junto com outro inspetor, quatro oficiais da polícia federal, um promotor e um juiz. Eles estavam acompanhando um caso de 2011 onde acharam seis bolivianos sem documentos fazendo roupas numa fábrica clandestina, mas votaram não processar o caso como escravidão. Eles queriam ter certeza que a fabriqueta continuava fechada.
Em vez disso, os inspetores encontraram cinco bolivianos costurando roupinhas de bebê num galpão com paredes rachadas, infiltrações e um teto mofado caindo. Quatro mulheres jovens compartilhavam uma cela de concreto suja, dormindo em beliches improvisados, com as roupas espalhadas pelas camas e pelo chão. Elas não tinham nenhum móvel real e não podia fechar a porta do quarto. Amâncio disse que os bolivianos trabalhavam 12 horas por dia, seis dias por semana, costurando tecido em máquinas com defeito. Eles eram pagos, mas com irregularidade e baseado apenas na produção. Dois trabalhadores fugiram quando o Ministério do Trabalho chegou. O escritório de Amâncio nunca os encontrou – ele suspeita que eles tenham fugido para São Paulo. Fugas não são incomuns, me disse Amâncio. Os supervisores das fábricas convencem os imigrantes a ficar dizendo que as autoridades brasileiras vão deportá-los por trabalho ilegal, apesar do Brasil aceitar trabalhadores bolivianos como parte de seu acordo de livre comércio.
"Eles têm medo de serem pegos pelas autoridades", disse Amâncio. "É isso que mantém eles aqui. Eles só confiam no patrão, o cara que os explora. Ele explora esse medo." Os três que ficaram na fábrica de Americana citaram Gabriel Miffia Alanes, seu supervisor, como contato de emergência para o Ministério.
Os trabalhadores quase não falavam. Eles se encolhiam atrás de suas máquinas, se sentindo expostos, olhando para o chão, evitando perguntas. Os inspetores usaram de discrição, começando por assuntos mais sutis. Os trabalhadores olhavam para Alanes esperando alguma pista visual, no que os inspetores chamaram de "terror reverencial". Mas o argumento decisivo foi a porta. Quando as autoridades pediram aos trabalhadores para ver as chaves que eles usavam para entrar e sair da fábrica, nenhum conseguiu produzi-las. A porta trancava por fora, e o ministério disse que isso mostrava que Alanes mantinha os empregados presos.
Um bairro da periferia de Americana.
O caso de Americana é, de certo modo, típico. Ele tem um paralelo com a história de outro imigrante boliviano que conheci uma noite em frente a um restaurante peruano perto da Cracolândia em São Paulo. Edwin Quenta Santos trabalhava ali como garçom – o primeiro emprego de verdade que ele teve desde que escapou da fábrica do primo violento em Guarulhos, não muito longe do aeroporto de São Paulo. Ele morava num vestiário sem janelas e infestado de ratos perto do restaurante e dormia numa cama infantil de plástico em formato de carro de corrida. Ele ainda não tinha sido regularizado, e ganhava só um salário-mínimo, mesmo quase sempre trabalhando algumas horas depois do final de seu experiente. "Podemos dizer que ainda é um pouquinho como escravidão", ele disse, soltando uma risada.
Edwin chama sua história de "testemunho" – ele nunca falou com a polícia, nunca contou para a esposa e filhos o que passou. Ele seguiu em frente e tentou esquecer, mas ouviu rumores de que seu primo, Severo Oyardo Santos, estava comandando uma fabriqueta novamente. Então ele quis que as pessoas em seu país entendessem o que Severo fazia.
Em 2009, Severo visitou Edwin em La Paz, Bolívia. Severo já vivia em São Paulo há dez anos, e Edwin ficou chocado ao ver como ele parecia estar se saindo bem. Ele se gabava de ter uma fábrica que estava expandindo, e disse que estava procurando mais ajuda. Ele disse que Edwin podia triplicar sua renda se trabalhasse no Brasil. Edwin disse que emprestou cerca de 500 reais de Severo para uma passagem de avião e mais 500 para deixar com a família, até que pudesse mandar seu primeiro cheque.
"Eu pensei: 'Se ele está me emprestando quinhentos reais assim, significa que tudo vai ficar bem lá'", disse Edwin.
Quando chegou a São Paulo, atravessadores conhecidos como gatos se aproximaram de Edwin enquanto ele esperava pelo primo. Os gatos caçam bolivianos que chegam ao país sem conexões, oferecendo trabalho em fábricas de roupas clandestinas, escondidas nos fundos de prédios comerciais ou casas. Esse tipo de trabalho – exploração dispersa em pequena escala, diferente das torturas óbvias em fazendas por exemplo – está em expansão. Ano passado o Brasil registrou mais casos de escravidão urbana do que rural. "Eles ofereceram pagar meu hotel, disseram que tinham vagas disponíveis de trabalho. Eles ficavam insistindo", disse Edwin. "Aí meu primo chegou."
Severo levou Edwin até seu complexo perto do aeroporto e o apresentou a 20 e poucos outros membros da família estendida que já trabalhavam ali. Eles deram uma pequena festa de boas-vindas na cozinha lotada. A casa de concreto tinha três andares mas não uma porta da frente – só um portão com um cadeado, cuja chave Severo mantinha escondida. Severo estacionava seu carro na rua, reservando a garagem para seus cães de guarda. Se Edwin quisesse sair em algum momento além da viagem semanal permitida pelo primo, ele tinha que escalar o muro de trás e voltar antes que alguém percebesse. Ele sabia o tipo de punição que seu primo podia aplicar – ele disse ter visto Severo bater nos filhos. "Ele é maior que eu", disse Edwin.
Os trabalhadores seguiam um cronograma rigoroso, levantando às 5 da manhã e trabalhando até a meia-noite, às vezes fazendo um almoço de apenas 15 minutos. Eles bebiam água de um poço coberto de algas e dormiam em seis num quarto no térreo do complexo, ou na própria oficina de costura, empurrando as máquinas de costura e colocando colchões finos no chão. Edwin não sabia costurar, então começou cozinhando e limpando enquanto o resto da família costurava.
De acordo com Edwin, quando ele perguntava ao primo sobre o pagamento, ele gritava que era Edwin quem devia dinheiro a ele. Eles falariam de salário só quando ele conseguisse pagar sua dívida da passagem de avião e do empréstimo para a família. Severo era evasivo e mentia para os familiares que queriam acertar as contas, se recusando a pagar tudo que devia de uma vez. Durante o tempo em que Edwin ficou na fábrica, só um trabalhador conseguiu convencer Severo a pagá-lo, mas só porque tinha um outro primo com documentos que ameaçava denunciar o chefe para a polícia federal.
Os trabalhadores seguiam um cronograma rigoroso, levantando às 5 da manhã e trabalhando até a meia-noite, às vezes fazendo um almoço de apenas 15 minutos.
Edwin sofreu para aprender a costurar. Ele tentava usar as máquinas, estragando tecido. Ele levava um mês para produzir o que os primos conseguiam em quatro dias. Um empresário que tinha um contrato com Severo costumava aparecer na casa e exigia produção mais rápida. "Se meu primo dizia que não dava, ele respondia 'Problema seu, você tem que entregar isso amanhã'", me disse Edwin. Uma noite, ele e os outros não tiveram permissão para dormir.
Sua família na Bolívia implorou que ele mandasse algum dinheiro. Eles acabaram tendo que se mudar para uma casa com aluguel mais barato, e sua esposa tirou as crianças da escola particular. Edwin mentia quando os filhos perguntavam o que ele estava fazendo; ele tinha vergonha de admitir sua situação. "Imagine que eu vim da Bolívia com o plano de melhorar a vida da minha família lá", explicou Edwin. "Imagine como meus filhos reagiriam, ou minha esposa, meus pais. Por isso me fechei. Eu me sentia incapaz de fazer qualquer coisa."
Foi ficando cada vez mais óbvio que Severo não tinha intenção de compensar ninguém de maneira justa, e eles lentamente pararam de trabalhar. Quando um primo ou sobrinho dizia que queria sair, Severo o mandava arrumar as malas, depois deixava o parente, sem um centavo, na rodoviária de Guarulhos. Edwin não sabe para onde cada um foi. Ele esperava, ainda devendo e sem conexões no Brasil, enquanto o trabalho na fábrica diminuía até finalmente parar. Só os filhos de Severo ficaram. Um dia ele encontrou suas malas na calçada. Edwin dormiu no vestiário de um campo de futebol por três dias, se recuperando antes de ir para São Paulo para procurar emprego. Então finalmente chegou ao restaurante peruano na Cracolândia.
Um dia depois de conhecer Edwin, fui até o complexo de Severo em Guarulhos e esperei ele chegar em seu carro. Um homem gordo com uma cara de pug bateu a porta e andou até o portão da garagem.
"Quem está me julgando?", ele exigiu saber quando perguntei se ele tinha uma fábrica. "Eu tenho que saber." Ele disse que não havia uma fábrica lá, só seus filhos e um ou dois primos visitando. Ele me mostrou a casa. No segundo andar havia uma sala azulejada vazia, cheia de máquinas de costura. Um monte de feltro estava num canto. Ninguém estava trabalhando, mas as máquinas estavam com os carretéis de linha prontos.
"São mentiras inventadas por gente invejosa, uns inúteis", disse Severo.
Perguntei por que ele tinha tantas máquinas se não tinha uma fábrica. Ele tinha tido uma no passado, confessou. Mas a tinha fechado.
"Os costureiros querem trabalhar pouco e ganhar muito, e não pode ser assim, sabe?", ele disse. "Então melhor acabar logo com tudo."
O prédio de Severo Oyardo Santos em Guarulhos, onde Edwin Quenta Santos foi mantido em condições de escravidão.
Na manhã seguinte à festa confederada, dirigi cerca de 50 km do velho cemitério sulista até o endereço que o Ministério do Trabalho listava como a fábrica clandestina comandada por Gabriel Miffia Alanes e Eusebia Villalobos Tarqui, o casal boliviano pego com escravos em Americana. O GPS me levou até um terreno demolido, com um esqueleto de casa de compensado e ferro. Na esquina vi uma construção tosca de dois cômodos, as paredes marrons da mesma cor que a terra em volta. Fiquei tentando adivinhar, enquanto andava até um homem de chapéu cata ovo e botinas, se o barraco era a fábrica.
O homem apertou os olhos quando perguntei o que ele estava fazendo. Intrigado, ele disse que estava construindo um banco. Ele nunca tinha ouvido falar de fábrica nenhuma, mas alguns bolivianos moravam na casa do outro lado da rua. Ele não sabia nada sobre eles – quem eram, se trabalhavam – mas sabia que eles só saíam pela manhã e à noite. Eles andavam de cabeça baixa e nunca cumprimentavam ninguém.
Bati na porta de ferro vermelha da casa por vários minutos, antes que um homem de cabelo preto e bochechas amareladas esticasse a cabeça para fora. Seu braço, enfiado no bolso da bermuda, tinha uma tatuagem de escorpião. Atrás dele, roupinhas de bebê estavam penduradas num varal contra um muro de concreto.
Perguntei se tinha existido uma fábrica naquela casa. "Sim", ele disse. "Mas foi fechada faz tempo." O Ministério do Trabalho tinha aparecido alguns meses atrás. "Não tivemos problemas", ele disse. "Todo mundo tinha documentos."
Quando perguntei se ele tinha ouvido falar no caso de escravidão do outro lado da rua, ele se mostrou indignado. "Não é escravidão", ele disse. "Quando cheguei da Bolívia, eu trabalhava das sete a meia-noite. Eu queria trabalhar aquelas horas. O dono nunca me obrigou. Se eu trabalhasse como os brasileiros, das sete às cinco, eu não ganharia dinheiro suficiente."
Insistindo, mencionei Alanes, o vizinho boliviano pego com os escravos em sua fábrica no ano anterior. Ele o conhecia? Ele hesitou, depois disse "Sou eu".
Claro. O endereço onde eu tinha procurado – o que estava nos registros do Ministério – era da casa onde Alanes e a família dormiam. Aqui era onde eles trabalhavam, a fábrica do outro lado da rua onde ele mantinha seus trabalhadores presos. Um ano depois da batida do Ministério, depois de ter libertado os trabalhadores e ligado o caso a uma cadeia nacional, a fábrica continuava funcionando, e Alanes ainda estava no controle.
Ele desapareceu dentro da casa, mas uma mulher de rabo de cavalo veio até a porta – Tarqui, sua esposa. Ela expôs a situação: as únicas pessoas trabalhando na fábrica hoje eram ela e o marido. Eles faziam shorts para uma escola particular de São Paulo, mas se mostrasse o logo, perderiam o contrato. Entendido isso, ela abriu o portão e fez sinal para que eu a seguisse.
Um ano depois da batida do Ministério, depois de ter libertado os trabalhadores e ligado o caso a uma cadeia nacional, a fábrica continuava funcionando, e Alanes ainda estava no controle.
Um caminho de concreto, passando por moradias pequenas de bloco de concreto, levava a um enorme pavilhão de telhado de zinco, apoiado em postes de compensado, no fundo do lote. Tecido, embalagens de plástico e caixas de papelão cobriam o chão. Dois pôsteres apagados – um do Palmeiras, e outro com uma vista aérea de La Paz – decoravam as paredes manchadas de umidade. Luminárias pendiam do teto. Parte do telhado tinha desmoronado e mostrava o céu. Uma dúzia de máquinas de costura amareladas estavam sobre mesas de baralho.
Tarqui virou para mim num canto do galpão, pegou um short atlético de nylon vermelho e cruzou os braços. Ela disse que a escola pagava 90 centavos por peça e que ela e o marido faziam cerca de R$ 2.000 por mês. Em troca, seus filhos frequentavam a tal escola. Ela insistiu que os filhos nunca tinham trabalhado. (Amâncio, o inspetor do trabalho, disse que suspeitava do contrário.)
Ouvindo Tarqui falar, parecia que ela tinha chegado à gerência da fábrica por acidente. Em 2001 ela se mudou para o Brasil, a convite de uma boliviana casada com um brasileiro que precisava de uma babá. Ela embarcou num ônibus e enfrentou a viagem de dois dias até São Paulo. Ela acabou largando o trabalho de babá para trabalhar numa fábrica; depois de um tempo, ela e o marido abriram seu próprio negócio. Eles pegaram um contrato para fazer 1.000 shorts em uma semana. Não era possível fazer tudo sozinhos, então eles foram encontrar bolivianos na praça da cidade. Eles contrataram um, depois outro, e em 2011 o Ministério do Trabalho bateu a sua porta.
"Aqui eu me sinto perdido", me disse Alanes. "Cansado também."
O Ministério ordenou que a HippyChick Moda Infantil, a companhia que vendia as roupas de Alanes e Tarqui para as Lojas Americanas, pagasse uma indenização por "danos morais" aos trabalhadores e donos da fábrica. Levou cinco dias para a HippyChick pagar os funcionários. Depois disso, eles pegaram um ônibus e foram embora de vez. Alanes não sabia para onde eles tinham ido. E essa ausência, mais do que tudo, marca o registro do caso de Americana, e as operações de escravidão em geral. Os trabalhadores não testemunham e não deixam rastros.
Quanto às chaves: primeiro Alanes disse que o Ministério estava mentindo. Mais tarde, por telefone, Tarqui admitiu que eles mantinham a porta trancada, mas insistiu que os trabalhadores tinham acesso às chaves. Ela disse que eles já tinham sido roubados. Em novembro do ano passado, o judiciário federal brasileiro abriu um processo contra Alanes por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão, um crime punido com até oito anos de prisão.
Gabriel Maffia Alanes continua a operar sua fábrica clandestina, mesmo depois de ter sido condenado em 2013 por usar trabalho escravo.
Daniel Carr de Muzio, um genealogista confederado, empurrou a pesada porta de madeira de sua casa num condomínio fechado chamado Jardim Buru, nos arredores de São Paulo. Uma caminhonete com uma bandeira confederada estava na garagem. Muzio cresceu no Brasil, mergulhado em sua herança confederada. Sua avó se referiu a Abraham Lincoln como "aquele homem" até a morte, e seu avô jogou fora seus cartões de basebol de jogadores negros. Já adulto, Muzio continuou devotado a suas raízes norte-americanas, fazendo traduções do inglês para o português e falando com um sotaque sulista.
Dentro da casa de Muzio, lustres abriam caminho para enormes janelas do chão ao teto, com vista para o quintal cheio de eucaliptos e variedades subtropicais de limão. Em um aparador perto de um bar de vidro estavam três bandeiras em miniatura: do Brasil, dos EUA e dos confederados. Andando pela casa de bermuda xadrez e camiseta, Muzio me mostrou sua coleção de lembranças confederadas – livros, papéis e fotos antigas amarrotadas. Um exemplar manchado de Facts the Historians Leave Out: A Youth's Confederate Primer estava perto do computador, junto com um livro chamado Lost White Tribes, onde Muzio era mencionado.
Sentado numa cadeira de balanço na varanda dos fundos, olhando para seu jardim verdejante, ele tentou me desenganar da noção de que os confederados vieram para o Brasil para continuar praticando a escravidão. Os escravos não tinham para onde ir depois da Guerra Civil, ele me disse. O Brasil parecia uma ótima opção. "Tenho certeza que eles vieram voluntariamente", ele disse. "Essas pessoas, sabe, eram criadas por seus mestres – e elas não sabiam como sobreviver sozinhas. Elas provavelmente tinham muito medo de ficarem sozinhas."
Para os confederados, o legado do Sul é totalmente inocente, sem contas a prestar.
Quando perguntei a Muzio se ele já tinha ouvido falar sobre escravidão contemporânea no Brasil, ele disse que sim – haitianos em canteiros de obras, bolivianos em fábricas. Ele franziu a testa enquanto jogava um carvão de eucalipto no forno. "Agora, isso não tem nada a ver com a gente", ele disse.
Hoje os confederados são, na maioria, brasileiros brancos de classe média alta, o legado de poucos sulistas que conseguiram preservar o simulacro de suas plantações decadentes. Eles celebram uma mitologia que dificilmente sustenta o passado e estão cegos para o presente.
Na festa, encontrei Cindy Gião, uma visitante não descendente. Ela disse que não sabia quase nada sobre os confederados. Ela foi convidada por um amigo do pai, Robert Lee Ferguson. Gião achava que era descendente de italianos, espanhóis, portugueses e holandeses. Mas não tinha certeza. As pessoas não sabem, segundo ela, "porque somos muito misturados". É isso que muitos brasileiros invejam nos confederados – a conexão com o passado.
Para os confederados, o legado do Sul é totalmente inocente, sem contas a prestar. Os Estados Confederados da América são uma coleção de sons, palavras e imagens: uma música do Johnny Cash, um filme western, uma bandeira. A amargura sulista derreteu em kitsch – ou negação, esquecimento. É essa cegueira que mantém a escravidão invisível hoje.
"Os brasileiros não gostam muito da nossa história", disse Gião. "Estudamos isso na escola, mas não temos festas para celebrar o que nossos ancestrais fizeram por nós." Nesse momento ela se voltou para o palco para ouvir uma versão de "Summertime" de Porgy and Bess, e assistir um homem hasteando a bandeira brasileira junto com a Stars and Bars, a bandeira oficial dos Estados Confederados da América.

ATUALIZAÇÃO: Uma versão anterior desta matéria afirmava que a festa acontecia próxima à Americana. Mais precisamente, a festa aconteceu em Santa Bárbara d'Oeste, que é próxima à Americana.
Tradução: Marina Schnoor

Via : http://www.vice.com/pt_br/read/a-cidade-brasileira-onde-a-heranca-dos-confederados-norte-americanos-ainda-vive