segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

DITADURA MILITAR (PARTE II)



"Na noite de 31 de março de 1964, eu percebi que a classe operária estava isolada. E ia ser derrotada da forma mais desmoralizante possível: sem luta. E percebi que quem assumisse a responsabilidade de levar a classe operária à luta cometeria um crime. Os generais queriam fazer no Brasil o mesmo que foi feito na Indonésia no ano seguinte: um banho de sangue."
(Luís Carlos Prestes)

Com o Golpe Militar consolidado, restou aos oposicionistas duas linhas de combate: uma política (o PCB, que em 1966 constrói uma frente de "direita à esquerda" para a derrubada pacífica da ditadura militar com o seguinte pensamento: "fomos derrotados politicamente, portanto, podemos derrotá-los politicamente") e outra militar (liderada pelo PCdoB, que sempre foi radical). A segunda via foi a que mais atraiu os jovens, e foi a responsável por tudo o que se seguiu de ruim. Centenas de militantes com alguma ligação com o PTB de Leonel Brizola e João Goulart partiram pra o Uruguai para organizar uma resistência armada. Sob a liderança de Brizola, estes estavam interessados em fazer retornar Jango ao poder. Mas Brizola pediu ajuda a Fidel Castro, em Cuba, através de Herbert de Souza, o "Betinho". E aí então Cuba e a União Soviética assumiram os esforços de guerrilha, com objetivos menos nobres. Se por um lado tínhamos a CIA ajudando os militares brasileiros, por outro tínhamos a KGB (animada com o sucesso da Revolução Cubana) e Cuba injetando dinheiro nos partidos comunistas brasileiros.

"A atuação cubana em relação ao Brasil em termos militares - treinamento de brasileiros e concepção de luta guerrilheira - tiveram dois momentos distintos: na primeira fase, a coordenação de Fidel e Che na ajuda e treinamento dos militantes das Ligas Camponesas com o apoio direto e discreto da China (1962). A partir do golpe militar e com a destruição dos planos de Julião e Brizola, Fidel tomaria as rédeas desse processo e se tornaria, especialmente em relação ao Brasil, seu principal formulador."

(Luis Mir; A Revolução Impossível (uma história da luta armada da esquerda no Brasil))
Muitos estudantes partiram pra Cuba, como José Dirceu (Ministro da Casa Civil do governo Lula, hoje presidiário), para aprender táticas de revolução e guerrilha. Outros foram à União Soviética, como o jornalista Ancelmo Gois, para receber doutrinamento político direto com a KBG. Todos os que saíram receberam treinamento em guerrilha urbana, doutrinação, contra-informação, forma de governo, etc, portanto é muito difícil acreditar quando alguma dessas pessoas dizem que "estavam lutando pela democracia" (deve ser parte do treinamento).

O artigo 1º do estatuto do VAR-Palmares (grupo guerrilheiro formado pela união de dois outros grupos, o VPR e o COLINA, do qual fazia parte Dilma Rousseff) deixava bem claro: "A VAR-Palmares é uma organização político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo".


"Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática."

(Daniel Aarão Reis; ex-militante do MR-8, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense e autor de "Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade", em declaração ao jornalista Elio Gaspari)

Carlos Marighela, em seu Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano, explicava como deveria ser a luta armada visando a implantação do comunismo no Brasil:

a. A exterminação física dos chefes e assistentes das forças armadas e da polícia.
b. A expropriação dos recursos do governo e daqueles que pertencem aos grandes capitalistas, latifundiários e imperialistas, com pequenas expropriações usadas para o mantimento do guerrilheiro urbano individual e grandes expropriações para o sustento da mesma revolução. É necessário que todo guerrilheiro urbano tenha em mente que somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão...


Em outras palavras: a cultura do roubo e do assassinato. É como se eu decidisse que meus objetivos são mais importantes que a vida e as posses de uma parcela de pessoas que tratamos como inimigos. Vou juntando pessoas ao meu grupo e com o tempo a lista de inimigos vai aumentando e até mesmo antigos aliados passam a ser meus inimigos, e em pouco tempo será permitido roubar, matar e punir TODOS os que achássemos que são contra nossos objetivos. Vimos isso acontecer na Revolução Russa e na Chinesa, e também no Nazismo. Ou seja, estamos diante de uma perfeita "DEMOCRACIA COMUNISTA/NAZISTA".

"...não há país onde, depois de instaurado um regime comunista, não tenha sido imposto um sistema de terror. Podem variar os mecanismos do exercício do terror, a quantidade e a qualidade das vítimas, mas está em todo o lugar, temos que repetir com força, em todo o lugar, a idêntica ferocidade, a arbitrariedade e a enormidade no uso da violência para a manutenção do poder."

(Norberto Bobbio, filósofo italiano, inspirador da "nova esquerda", em entrevista ao jornal italiano L’Unitá).
Em dezembro de 1967 a Ação Libertadora Nacional (ALN) - liderada por Carlos Marighela - começou assaltos com a finalidade de "expropriação" de fundos. Até julho de 1969 foram atacadas mais de 31 agências bancárias e um carro pagador. O que se devia não só à ALN, mas também a outras organizações clandestinas. Uma das mais importantes ações de "expropriação" foi executada pelo grupo VAR-Palmares, o roubo de um cofre da residência de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Retirado da mansão e levado para um aparelho, o pesado cofre revelou que a operação valera dois e meio milhões de dólares. Um resultado e tanto, pois a VAR-Palmares não mais precisaria arriscar-se em assaltos a bancos. O grupo emitiu o seguinte comunicado à agência France Press:

"Depois de uma longa investigação, localizamos uma parte da famosa ‘caixinha’ do Adhemar de Barros, enriquecido por anos e anos de corrupção. Conseguimos US$ 2,5 milhões. Esse dinheiro, roubado do povo, a ele será devolvido."

Não só não foi devolvido como, aparentemente, a turma continua "expropriando" por aí, em outras áreas.
De 1964 a 1968 diversos atentados terroristas com bombas eclodiram por todo o país. Dois deles contra o jornal "Estado de S. Paulo", curiosamente. Em 1 de julho de 1968, membros do COLINA assassinaram a tiros um oficial no bairro da Gávea, acreditando ser o oficial boliviano que havia matado Che Guevara, quando na verdade tratava-se de um major do exército alemão, Edward Ernest von Westernhagen. Diante do equívoco, o COLINA não assumiu a autoria do atentado.

Em 26 de junho de 1968 três membros de um grupo de onze militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) lançaram um carro-bomba, sem motorista, contra o Quartel General do II Exército, no bairro de Ibirapuera, em São Paulo. A guarda disparou contra o veículo, que bateu na parede externa do Quartel General. O soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos, que estava de sentinela neste dia, foi em direção ao carro, pensando tratar-se de um acidente. A carga com vinte quilos de dinamite explodiu em seguida, atingindo uma área de raio de 300 metros e estraçalhando o corpo de Kozel. Outros 6 militares ficaram gravemente feridos.

No dia 4 de setembro de 1969 os militantes da ALN e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), capturaram o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, com o intuito de trocá-lo por presos políticos (entre eles José Dirceu). Dessa ação participaram o ex-Deputado Federal Fernando Gabeira e o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins. Ao contrário de seus colegas, Gabeira admite que não lutava pela "democracia", e sim por uma ditadura do proletariado. Assim também o fez Eduardo Jorge, candidato a presidente em 2014.

Em 5 de fevereiro de 1972, militantes da ALN, VAR-Palmares e PCBR assassinaram a tiros o marinheiro inglês David Cuthberg, que se encontrava no país para as comemorações dos 150 anos de independência do Brasil. Após o atentado foram encontrados panfletos que informavam que o ato teria sido decisão de um "tribunal", como forma de solidariedade à luta do Exército Republicano Irlandês contra o domínio inglês. Ou seja, um completo inocente morto ao acaso para provar um ponto ideológico que não faria nenhuma diferença na luta pelo poder. E tudo isso decidido por um "Tribunal" com poder de vida e morte. Já imaginou como seriam nossas vidas nesse paraíso socialista?

Em um editorial publicado no dia 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de São Paulo utilizou a expressão "ditabranda" para se referir à ditadura que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Na opinião do jornal, que apoiou o golpe militar, a ditadura brasileira teria sido "mais branda" e "menos violenta" que outros regimes similares na América Latina. É como certos fanáticos de um partido que, pra justificar os roubos (e rombos) nas contas públicas dizem que "os do partido tal faziam pior". Não se justifica violência dizendo que se está sendo menos violento que outros monstros. É sempre bom lembrar que a guilhotina foi inventada como uma forma "mais humana" de se executar um prisioneiro, porque as técnicas antigas eram mais violentas. O que não tornou a Revolução Francesa menos desumana.

O regime militar brasileiro também planejou atentados no intuito de incriminar a Esquerda: o mais conhecido desses foi o Atentado ao Gasômetro. A idéia era criar um clima de terror para encobrir o sequestro e assassinato de quarenta figurões da política brasileira, entre eles Carlos Lacerda, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek. Mesmo no fim da ditadura (quando o próprio governo militar já ensaiava uma abertura política) alguns militares mais radicais não desistiram de fazer atentados em nome da esquerda (numa tentativa desesperada de se manterem "úteis" no poder): O atentado ao RioCentro - onde dois militares que tentavam plantar uma bomba dentro de um edifício acabaram detonando ela dentro de um carro - foi o exemplo mais claro disso.

Há quem ache que as coisas só começaram a ficar pesadas depois de 68, mas mesmo antes já havia mortes por tortura pelos militares: O corpo de Manoel Raimundo Soares, sargento do Exército com idéias nacionalistas e militância na organização dos suboficiais, foi encontrado boiando, com mãos e pés atados, nas águas do rio Jacuí no dia 24 de agosto de 1966. O episódio ficou conhecido como o "Caso das Mãos Amarradas". Foi um dos primeiros casos de tortura e morte por parte dos órgãos de repressão sobre o qual se teve notícia na época.

Com a escalada de violência de ambas as partes, em 1968 instaurou-se o famigerado Ato Institucional nº 5, mais conhecido como o "AI-5", que definiu o momento mais duro do Ditadura Militar, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime (ou como tal considerados). Isso também ocorreu pois os militares viam com preocupação os movimentos nacionais se associando contra o regime. No decorrer de 1968 a Igreja Católica começava a ter uma ação mais expressiva na defesa dos Direitos Humanos (com Dom Hélder Câmara no Recife e Paulo Evaristo Arns em São Paulo), e lideranças políticas cassadas buscavam se unir visando a um retorno à política nacional. A marginalização política que o golpe impusera a antigos rivais - Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart - tivera o efeito de associá-los, ainda em 1967, na Frente Ampla, cujas atividades foram então suspensas pelo ministro da Justiça, em abril de 1968. Uma greve dos metalúrgicos em Osasco, em meados do ano (a primeira greve operária desde o início do regime militar), também sinalizava para a "linha dura" que medidas mais enérgicas deveriam ser tomadas para controlar as manifestações de descontentamento de qualquer ordem. A gota d'água para a promulgação do AI-5 foi o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, na Câmara, nos dias 2 e 3 de setembro, lançando um apelo para que o povo não participasse dos desfiles militares do 7 de Setembro e para que as moças, "ardentes de liberdade", se recusassem a sair com oficiais.

O AI-5 autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos e suspender a garantia do habeas-corpus. No preâmbulo do ato dizia-se ser essa uma necessidade para atingir os objetivos da revolução, "com vistas a encontrar os meios indispensáveis para a obra de reconstrução econômica, financeira e moral do país". Ironicamente não é muito diferente das propostas da "democracia comunista/nazista" que listei mais acima. Faltou só dizer formalmente que eles poderiam matar qualquer um que se interpusesse entre eles e o "futuro do país". Mas isso eles faziam informalmente.

Quantos jovens idealistas foram ceifados no auge de sua vida por terem sido cooptados por um dos dois regimes autoritários que mascaravavam sua vilania em nome da liberdade?
De um lado os Militares, controlando com mão-de-ferro o país com a desculpa de evitar uma ditadura comunista.

De outro, os comunistas, desejando o poder à todo custo, enquanto diziam lutar pela liberdade.
E o que vivemos foram trevas. E essas trevas, como um Dementador, sugaram toda a alegria de viver do brasileiro.


E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.

Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre "as malas do Golbery" ou "as comissões das turbinas", "as compras de armamento". Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

(Hildegard Angel)

O futebol foi usado como válvula de escape. Nem a seleção brasileira escapou do controle militar. Na copa de 70, quando o presidente/general Emílio Garrastazu Médici disse que Dadá Maravilha precisava ser convocado, o treinador João Saldanha respondeu: "nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time". Pouco tempo depois foi demitido e substituído pelo Zagallo. A imprensa também foi completamente controlada:

"O exercício do jornalismo não é confortável sob ditaduras, embora se saiba que veículos de comunicação influentes apoiaram o arbítrio e até se enriqueceram com ele. Com o AI-5, a autocensura virou censura aberta, explícita. Há um episódio que me traz uma afetuosa recordação: Eu trabalhava no Jornal da Tarde, em São Paulo, naquele nefando 13 de dezembro de 1968. A redação ouviu, consternada, a leitura do AI-5 pelo rádio. Fomos avisados que um censor passaria a ler o jornal antes de sair às bancas. Teria um lugar para ele nas cercanias de nossas mesas. Naquela noite, quando o censor chegou, a redação em peso saiu. Fomos para a calçada (os mais famintos aproveitaram para se saciar com aquele magnífico sanduiche de pernil do Bar Estadão). Depois, voltamos ao trabalho."

(Nirlando Beirão)

Toda forma de expressão cultural era controlada e censurada. O grande desafio (ou diversão) dos artistas era conseguir diblar a censura e criticar (de forma velada) a situação. O músico Tom Zé conseguiu colocar um c* na capa de um disco, só pela zoação. Secos & Molhados, de Ney Matogrosso, conseguia esconder melhor que ninguém sua rebeldia e suas críticas por trás de muita bizarrice. Mas o mestre da metáfora era mesmo Chico Buarque que, com suas letras precisas, conseguia traduzir o espírito daquela época até mesmo para os dias de hoje, para as novas gerações que - felizmente - nunca a viveram, mas ironicamente pedem seu retorno.

Uma música lançada em 1968 foi a que mais marcou este período: franca, direta, ela serviu de hino para toda uma geração de jovens que lutava pela abertura política: "Caminhando e cantando (Pra não dizer que falei das flores)" foi composta e cantada por Geraldo Vandré. A música foi a sensação do Festival de Música Brasileira da TV Record, e através dela Vandré clamava o público à revolta contra o regime ditatorial e ainda fazia fortes provocações ao exército, como no trecho: "Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição: De morrer pela pátria / E viver sem razão".



Era comum nessa época pessoas desaparecerem. Stuart Edgar Angel Jones, o Tuti, foi torturado até a morte dentro do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Amarram-no a uma viatura, com a boca colada ao cano de escapamento. Daí deram voltas no pátio. A viatura acelerava e freava. Tuti, com a pele esfolada, tossia forte. Seu corpo nunca foi encontrado. Sua mãe, Zuzu Angel, ficou conhecida no Brasil e no mundo por ter botado a boca no trombone e denunciado o desaparecimento do filho. Sua busca só terminou com sua morte, num controverso acidente de carro.

Ano passado morreu de suicídio a vítima mais jovem da Ditadura Militar: Carlos Alexandre era um bebê de 1 ano e 8 meses quando foi torturado. Levou uma bofetada na cara que cortou seus lábios, porque chorava de fome. Foi jogado no chão e bateu a cabeça. Levou choques elétricos. "Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social." escreveu Carlos, muito tempo depois. Tudo isso aconteceu porque os policiais encontraram na casa dos seus pais um livro intitulado "Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil" e o consideraram uma injúria às autoridades. A mãe ficou presa por 40 dias. O pai ficou 4 meses, sendo torturado. Eles foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro.

Nada brando pra quem viveu. Vocês têm alguma dúvida de que eu (ou mesmo vocês) por conta desse blog não seria levado pro DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e torturado? Eu nunca tive.
João Figueiredo, o último presidente do regime militar (1979-1985) acusava Getúlio de ser o verdadeiro pai da ditadura: "No Brasil, quem inventou golpe de Estado, prisão de político, fechamento de Congresso e senador 'biônico' não fomos nós, os milicos, e sim a mente maligna do Getúlio Vargas."

Parece um certo partido de hoje, justificando o injustificável.

Referência:
Fundação Getúlio Vargas: Fatos & Imagens do AI-5;
O suicídio de Carlos Alexandre, torturado durante a ditadura;
Carta Capital: Especial 50 anos do golpe


Fonte http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2014/12/ditadura_milita.html

O mais detalhado mapa já feito do nosso lugar no universo

Um recente estudou mapeou milhares de galáxias próximas para entender o nosso superaglomerado


Sabemos que a Terra e o sistema solar estão localizados na Galáxia da Via Láctea. Mas como exatamente a Via Láctea se encaixa em meio aos bilhões de outras galáxias no universo conhecido?
Num fascinante e recente estudo, um grupo de cientistas mapeou milhares de galáxias próximas, e descobriu que a Via Láctea faz parte de um gigantesco “superaglomerado” de galáxias, a que deram o nome deLaniakea.
Esta estrutura é muito, muito, muito maior do que os astrônomos haviam anteriormente imaginado. Laniakea contém mais de 100,000 galáxias, se estende por 500 milhões de anos-luz, e se tem mais ou menos essa aparência (a Via Láctea é apenas um pontinho localizado em uma de suas franjas à direita):

Diga olá para Laniakea, nosso superaglomerado local


É difícil conceber a enormidade dessa estrutura. Cada um desses pontos de luz é uma galáxia. Cada galáxia contém milhões, bilhões ou mesmo trilhões de estrelas. Ah, e estamos falando apenas desse nosso pequeno canto local de um universo muito mais vasto. Há muitos outros superaglomerados de galáxias.
Como os pesquisadores descobriram que essa estrutura existia – e como a distinguiram de outros superaglomerados?
O grupo de cientistas liderados por R. Brent Tully da Universidade do Havaí primeiro estudou o movimento de cerca de 8.000 galáxias em nossas vizinhanças. Ao fazê-lo, conseguiram mapear certos padrões. O universo como um todo está se expandindo desde o Big Bang. Mas o grupo também descobriu que a gravidade atraía algumas galáxias para mais perto umas das outras.
Isso os ajudou a construir o gráfico abaixo, em que as galáxias que se afastam de nós são mostradas em vermelho, e as galáxias se movendo em nossa direção são mostradas em azul.

As galáxias mais próximas se movem em padrões distintos


As galáxias que se afastam de nós em vermelho, e as galáxias se movendo em nossa direção em azul.
Isso, por sua vez, os levou a criar um mapa dos caminhos que as galáxias fazem, e assim puderam demarcar algumas fronteiras.
O mapa abaixo mostra alguns dos caminhos dentro de nosso superaglomerado de galáxias. Há uma região especialmente densa chamada de “O Grande Atrator” (em vermelho) que vagarosamente puxa a Via Láctea e muitas outras galáxias em sua direção:

Muitas galáxias na Laniakea estão sendo puxadas na direção do “Grande Atrator”


O que é interessante é que essa estrutura é muito maior que se esperava. Os astrônomos há muito tempo haviam agrupado a Via Láctea, Andrômeda, e outras galáxias próximas no Superaglomerado de Virgem, que contém cerca de 100 grupos de galáxias.
Mas como Tully e seus colegas descobriram, e como o mapa acima mostra, esse Superaglomerado de Virgem é apenas parte de um superaglomerado muito, muito maior – Laniakea. (O nome, bastante adequado, significa “céus incomensuráveis” em havaiano.)
E o que acontece quando olhamos o superaglomerado de ainda mais longe? O artigo aponta que Laniakea faz fronteira com outro superaglomerado conhecido como Perseus-Peixes. E os cientistas definiram as fronteiras de acordo com onde as galáxias divergiam consistentemente:

Laniakea faz fronteira com outro superaglomerado: Perseus-Peixes


E o que acontece se olhamos de ainda mais longe? Mesmo Lanikea e Perseus-Peixes são apenas um pequeno bolsão num universo muito mais vasto. Esse universo consiste de vazios imensos e superaglomerados densamente povoados por galáxias. Ele tem mais ou menos a seguinte aparência:

E... olhando bem de mais longe o universo em geral


Ainda não temos um mapa detalhado de todos os superaglomerados de galáxias que existem. Mas agora temos um de nosso próprio superaglomerado – sem dúvida é um começo.
Para assistir: há um vídeo excelente da Nature explicando as descobertas do grupo. As imagens acima vêm desse vídeo.





Nota do editor: Este texto foi originalmente publicado na Vox Magazinee traaduzido sob autorização.
Via http://www.papodehomem.com.br/o-mais-detalhado-mapa-ja-feito-do-nosso-lugar-no-universo

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

“Maconha é a cura do câncer”, afirmam cientistas em documentário revelador

No último dia 16 de dezembro, foi publicada no Diário Oficial da União uma resolução que autoriza médicos brasileiros a prescreverem o canabidiol para seus pacientes. A substância derivada da maconha pode ser receitada apenas para o tratamento de epilepsias em crianças e adolescentes. Mas há ainda mais restrições nessa permissão.

Além de não autorizar o tratamento com canabidiol (CBD) para adultos, a resolução do Conselho Federal de Medicina exige que os pacientes já tenham antes tentado usar medicamentos convencionais e não conseguido melhoras.

Outra restrição é que somente neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras podem receitar o CBD. E que fique claro: a resolução proíbe expressamente o uso medicinal da Cannabis in natura, assim como de qualquer outro derivado dela que não seja o canabidiol. Só daqui a dois anos essa norma será revista, quando os resultados de até então serão avaliados.
Por um lado, a permissão é um importante passo rumo ao fim do tabu que envolve a maconha no Brasil. Por outro, é ainda um avanço tímido. Porque, trocando em miúdos, a resolução é permitida apenas para um tipo de enfermidade, apenas para crianças e adolescentes, o CBD pode ser receitado apenas por alguns especialistas e apenas em último caso. Muito pouco quando comparamos à experiência internacional já acumulada no uso medicinal da erva, que envolve inclusive o tratamento para câncer com resultados excepcionais.

No YouTube é possível assistir a dois documentários que mostram isso. O primeiro se chama “Run From the Cure”, e conta a história de Rick Simpson.


Rick é um canadense nascido em 1949 que sempre trabalhou na área de saúde. No ano de 1997, ele sofreu um ferimento na cabeça e os médicos receitaram uma série de remédios, que Rick começou prontamente a tomar.

Passado algum tempo, ele não percebeu melhoras. Muito pelo contrário: sentia que os efeitos colaterais dos medicamentos estavam piorando sua situação. Já era 1999 quando Rick assistiu a um programa na TV sobre maconha medicinal e decidiu tentar a sorte. Um amigo conseguiu ilegalmente um baseado e o resultado foi que ele se sentiu muito melhor do que com as doses cavalares de comprimidos que vinha tomando. Mas, ao solicitar uma prescrição de maconha para seu médico, teve o pedido recusado.
Nos anos seguintes, o canadense vivenciou uma piora nos sintomas. Foi quando decidiu produzir o próprio remédio por sua conta e risco. Assim, Rick começou a plantar maconha, já com a ideia de produzir um óleo concentrado que potencializasse os efeitos medicinais da erva.
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O óleo é feito cozinhando as flores da planta misturadas a solvente. No processo, a mistura vai sendo reduzida até ficar bem concentrada e com uma cor semelhante à da gasolina. Em média, 500 gramas de Cannabis produzem 56 gramas de óleo.
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Consumindo pequenas doses diárias do remédio caseiro, logo Rick viu sua vida retornar à normalidade. A pressão sanguínea caiu, o sono voltou, as dores foram embora. Mas o mais incrível viria a acontecer no ano de 2003, quando ele teve que retirar um câncer de pele. Algumas semanas após a cirurgia, o tumor voltou. Rick aplicou o óleo de maconha medicinal direto na área afetada e cobriu apenas com um band-aid. Poucos dias depois, o câncer simplesmente tinha desaparecido.

Percebendo que tinha nas mãos um remédio poderoso, barato e sem efeitos colaterais que a maioria das pessoas desconhecia, Rick decidiu compartilhar gratuitamente sua descoberta com o mundo. No primeiro ano, foram tratadas cerca de 50 pessoas com problemas de pele diversos. No ano seguinte, o óleo produzido por Rick foi bem sucedido no tratamento de um homem com um melanoma inoperável. E, de 2003 até hoje, já foram mais de 5 mil pacientes medicados com o óleo da maconha, que sofriam de tipos diversos de câncer, diabetes, epilepsia, dores crônicas, glaucoma, úlceras, enxaqueca, ansiedade, depressão e outros males.
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A história de Rick Simpson se soma ao documentário “Maconha, a Cura do Câncer”, também encontrado no YouTube, para mostrar como a discussão lá fora já está uns tantos quilômetros à frente do cenário brasileiro.

O filme faz um apanhado geral sobre a história do uso da maconha pelo homem e de como a sua proibição foi uma invenção recente. Até então, remédios baseados na Cannabis faziam parte da maleta dos médicos, sendo usados para tratar dores do parto, reumatismo e transtornos nervosos. Eram inclusive receitados a bebês, para que parassem de chorar por conta das dores de dente.
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Foi no início do século XX que a maconha passou a ser perseguida. Com o surgimento das drogas criadas quimicamente, a indústria farmacêutica começou o lobby anti-cannabis para eliminar a concorrência. Em 1937, uma lei aprovada pelo congresso dos EUA proibiu médicos de receitar maconha. Em 1942, já não existia mais nenhum remédio baseado no cânhamo nas farmácias do país.

A guerra contra a maconha durou décadas. Até que a pressão popular fez com que alguns estados norte-americanos revertessem esse cenário, aprovando legislações próprias para oferecer tratamentos alternativos a seus habitantes. A Califórnia foi o primeiro, com sua lei sobre maconha medicinal que data de 1996. De lá para cá, mais de 20 outros estados aprovaram leis semelhantes.
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A sequência do filme foca nas várias descobertas científicas dos anos recentes envolvendo o uso terapêutico da erva. Entre elas está o trabalho do pneumologista Donald Tashkin, da Universidade da Califórnia. Em um estudo realizado com 600 pessoas, o pesquisador demonstrou que a incidência de câncer pulmonar em quem fuma maconha diariamente é menor do que a que ocorre em quem não fuma nada.

A tese levantada pelo filme é a de que os canabinoides promovem a morte de células cancerígenas, deixando as saudáveis intocadas. Isso porque, ao longo da evolução, nosso sistema nervoso desenvolveu um processo interno que regula uma porção de funções fisiológicas (fome, sono, relaxamento, etc), de forma muito parecida à ação da maconha. Por conta da semelhança, a ele foi dado o nome de sistema endocanabinoide. O que a erva medicinal faz é estimular e reforçar esse sistema natural que já está lá no corpo humano.
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Algumas estatísticas apontam que uma em cada três pessoas pode vir a ter câncer durante a vida. E se a cura já existe, mas não está acessível por ser considerada crime? Que direito alguém tem de dizer a uma pessoa com câncer se ela pode ou não tentar determinado tratamento?
O CBD, que acaba de ser regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina, é apenas um entre os mais de 420 ativos químicos com propriedades medicinais encontrados na Cannabis. Será que cada paciente brasileiro que pode ser tratado com maconha terá de viver a mesma epopeia que o canadense Rick Simpson?

Contra o tabu e o preconceito, nós do Hypeness temos apenas uma coisa a dizer: pessoas estão sofrendo, pessoas estão morrendo. Já passou da hora de mudar o status da relação com a Cannabis. Assista aos documentários e tire suas conclusões.
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Conheça a história de uma mãe brasileira que precisou comprar maconha ilegalmente para tratar a epilepsia de sua filha.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

DITADURA MILITAR (Parte 1)



Estamos vivendo num momento do Brasil em que o radicalismo está polarizado. Existem os simpáticos à direita e os à esquerda. Os fanáticos à direita e à esquerda e os ultra-direitistas e os ultra-esquerdistas. E com o acirramento das tensões a ala ultra-radical de cada lado vai ganhando força. Isso é a última coisa que o Brasil precisa. Fiz um texto mostrando os perigos da esquerda aplicada de forma radical, cujo melhor e mais didático exemplo foi a Revolução Russa. Agora vamos ver os perigos da Direita aplicada de forma radical. A história do Brasil é cheia de interferências militares no poder. Para o bem e para o mal. Pedir intervenção militar nas ruas é coisa das mais irresponsáveis a se fazer numa Democracia cujas instituições AINDA estão funcionando.

O golpe militar não começou em 64. Ainda nos anos 30 já tivemos tensões entre os militares e a presidência, na figura de Getúlio Vargas e Júlio Prestes. Impossível sintetizar todas as reviravoltas políticas sem deixar de ser objetivo, então vou me ater aos fatos principais: Getúlio presidiu o país de três formas diferentes: Uma apontado pela Assembléia (com apoio militar), outra como Ditador (também com apoio dos militares) e outra eleito pelo povo.

Diz-se que o Estado-Novo de Vargas já foi um golpe Militar, e que aconteceria com ou sem a figura de Getúlio. Mas foi no terceiro governo que a Ditadura Militar começou a se desenhar: Getúlio Vargas teve um governo tumultuado devido a medidas administrativas que tomou e devido as acusações de corrupção que atingiram seu governo. Em 1954 o ministro do Trabalho de Getúlio, João Goulart, concedeu um polêmico reajuste do salário mínimo, em 100%, o que ocasionou um protesto público dos militares contra o governo. Para refrear o impacto negativo acarretado por tal pretensão, Getúlio demite João Goulart, bem como o seu ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso. Ainda assim concede o aumento do salário mínimo em maio nos mesmos moldes pretendidos por Goulart, o que gera revolta entre o empresariado brasileiro que adere à cruzada antigetulista liderada pela UDN e pela facção conservadora das Forças Armadas.

Carlos Lacerda, jornalista e ex-deputado federal da UDN, fazia forte oposição a Getúlio. Em 5 de agosto de 1954 ele sofre um atentado onde seu guarda-costas, o major da FAB Rubens Florentino Vaz, morre. O atentado foi atribuído membros da guarda pessoal de Getúlio, chamada pelo povo de "Guarda Negra". Esta guarda fora criada para a segurança de Getúlio, em maio de 1938, logo após um ataque de partidários do integralismo ao Palácio do Catete. Ao tomar conhecimento do atentado contra Carlos Lacerda Getúlio disse: "Carlos Lacerda levou um tiro no pé. Eu levei dois tiros nas costas"! Mais tarde soubemos que Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, foi o mandante. A crise política que se instalou foi muito grave porque, além da importância de Carlos Lacerda, a FAB, à qual o major Vaz pertencia, tinha como grande herói o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, que Getúlio derrotara nas eleições de 1950. No dia 8 de agosto, foi extinta a "Guarda Negra".

Por causa do crime Getúlio foi pressionado pela imprensa e por militares a renunciar. O Manifesto dos Generais, de 22 de agosto de 1954, pede a renúncia de Getúlio. Foi assinado por 19 generais de exército, entre eles Castelo Branco e Henrique Lott, e dizia: "Os abaixo-assinados, oficiais generais do Exército (...) solidarizando com o pensamento dos camaradas da Aeronáutica e da Marinha, declaram julgar, como melhor caminho para tranquilizar o povo e manter unidas as forças armadas, a renúncia do atual presidente da República, processando sua substituição de acordo com os preceitos constitucionais".

Esta crise levou Getúlio Vargas ao suicídio na madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954, logo depois de sua última reunião ministerial, na qual fora aconselhado, por ministros, a se licenciar da presidência. O povo ficou em prantos. Assumiu interinamente então o vice-presidente potiguar Café Filho, de oposição a Getúlio (naquela época as eleições para Presidente e Vice eram separadas, então podia acontecer de um Vice ser do partido de oposição ao Presidente). Novas eleições seriam realizadas em 1955. Uma parte dos militares viu aí a chance de afastar de vez o "Varguismo" (que representava um governo popular, reformista) e se aliou à UDN numa proposta de Carlos Lacerda de, nas próximas eleições, terem um só candidato. Pra conseguirem isso precisariam do apoio do partido PSD. Mas o PSD indicou Juscelino Kubitschek, nome que foi duramente rejeitado por Lacerda e por Café Filho, bem como pela ala conservadora das Forças Armadas, por conta de sua ligação com o PTB de Getúlio. Então o PSD se aliou ao PTB pra fazer uma chapa própria, com Kubitschek como presidente e João Goulart ("Jango") como vice. A UDN escalou um general militar pra concorrer. Obviamente os militares perderam, mas não se conformaram. Com um golpe militar à vista, quem podia impedi-los??

    O (promovido a) Marechal Henrique Lott foi candidato governista nas eleições presidenciais de 1960
Mas eis que surge o General Henrique Lott!! Ministro das Forças Armadas, ele dá um Golpe de Estado preventivo, para que Kubitschek pudesse assumir a presidência. O presidente interino na época, Carlos Luz (Café Filho estava internado num hospital) teve de fugir num Cruzador da Marinha, sob chuva de bala de canhões do Exército! Lacerda asilou-se na embaixada de Cuba. 
Juscelino Kubitschek assumiu, fez 50 anos em 5, construiu Brasília, foi considerado o melhor presidente que o Brasil já teve e em 1976 morreu num controverso acidente de carro. Mas voltemos à linha cronológica:
Em 1960 tivemos novas eleições, onde desta vez os eleitos foram Jânio Quadros, do Partido Democrata Cristão (PDC) e apoiado pela UDN, e como vice o opositor João Goulart (ele de novo!). Em 25 de agosto de 1961, enquanto João Goulart realizava uma visita diplomática à República Popular da China, Jânio Quadros misteriosamente renuncia ao cargo de presidente. A Constituição era clara: o vice-presidente deveria assumir o governo. Mas os ministros militares do Exército, Aeronáutica e Marinha impediram a posse de Jango, e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, foi empossado presidente. Por que isso aconteceu?
"No momento da renúncia de Jânio, Goulart estava em viagem com o objetivo de incrementar o intercâmbio com os países do bloco socialista. Na China ele fizera um pronunciamento particularmente radical, quando revelara sua intenção de estabelecer uma república popular no Brasil, mas acrescentara que para fazer isso seria necessário utilizar as praças para esmagar o quadro de oficiais que ele considerava de reacionários."
(Robert A Hayes; Nação Armada, a mística militar brasileira).
Difícil dizer se isso é verdade. Não havia internet pra registrar tudo, e o que temos são versões contrastantes. Mas esse era o retrato da mente dos militares na época: Jango estava preparando um golpe sindicalista, inspirado na experiência de URSS e China. O fato dele estar visitando a China logo após ter visitado a URSS não ajudou muito a dissipar o temor.
Um movimento de resistência aos militares foi encampado por Leonel Brizola. Quase tivemos uma guerra interna. A solução encontrada foi o estabelecimento do regime parlamentarista de governo, que vigorou por dois anos (1961-1962), tornando Tancredo Neves o Primeiro-Ministro e reduzindo enormemente os poderes constitucionais de Jango. Com essa medida os três ministros militares aceitaram, enfim, o retorno e posse de Jango. Em 5 de setembro de 1961 Jango retorna ao Brasil e dois dias depois é empossado. Em janeiro de 1963 Jango convoca um plebiscito para decidir sobre a manutenção ou não do sistema parlamentarista. Cerca de 80% dos eleitores votaram pelo restabelecimento do sistema presidencialista. A partir de então Jango passa a governar o país como presidente, e com todos os poderes constitucionais à sua disposição.
Foi então que Jango quis passar no Congresso Nacional suas reformas de base para o país. Reformas interessantíssimas, mas radicais e que desagradariam muita gente. Reforma agrária, com desapropriação das áreas rurais inexploradas ou exploradas erroneamente, situadas às margens dos eixos rodoviários e ferroviários federais. Reforma universitária, com abolição da cátedra vitalícia. Reforma fiscal, com limite à remessa de lucros para o exterior, sobretudo por parte das empresas multinacionais. Reforma eleitoral, onde estendia o direito de voto aos analfabetos e aos militares de baixa patente. Previa-se também a legalização do Partido Comunista Brasileiro.
Ou seja, João Goulart tinha culhões. Mesmo hoje algumas dessas propostas seriam dinamite pura, imagine naquela época. Obviamente o Congresso foi contra as medidas. Irritado, Jango apelou ao povo. Foi às ruas lançar o povo (que o amava, por tudo o que ele já tinha feito desde a Era Vargas) contra o Congresso. A manifestação mais importante ocorreu no dia 13 de março de 1964, em frente ao Edifício Central do Brasil. O "Comício da Central", como ficou conhecido, reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo sindicatos, associações de servidores públicos e estudantes. Os discursos pregavam o fim da política conciliadora do presidente, com apoio de setores conservadores que, naquele momento, bloqueavam as reformas no Congresso. Em seu discurso, Goulart criticou seus opositores que, segundo ele, sob a máscara de democratas, estariam a serviço de grandes companhias internacionais e contra o povo. Jango anunciou que tinha assinado um decreto encampando as refinarias de petróleo privadas e outro desapropriando terras às margens de ferrovias e rodovias federais (ou seja, passando por cima do Congresso).
"O Exército deslocou uma tropa para a Central do Brasil com o objetivo de, na base da porrada, dissipar a multidão que se deslocava pela Av. Presidente Vargas para assistir ao comício. Foi o primeiro ato de covardia, por parte do Exército, que assisti. Centenas de soldados, comandados por um Sargento, espancavam com enormes cassetetes os trabalhadores e estudantes que seguiam em direção à Central do Brasil, tentando esvaziar o Comício."
(José Emílio Gomes)
A oposição acusava o presidente de desrespeito à ordem constitucional. Carlos Lacerda o chamava de "subversivo". As forças armadas viviam um momento de tensão interna, onde uma parte pequena de seus oficiais rumava para a esquerda.
"Em 64, o Exército tinha cerca de 10 mil oficiais. Desses, mil militares de esquerda, reformistas, dos quais não mais que 150 eram comunistas, contando-se oficiais, suboficiais, cabos e soldados. A direita militar sempre foi majoritária, com 90 por cento do corpo de oficiais do Exército. Nunca houve, nem em sonho, a ameaça militar vermelha. Para se criar um exército revolucionário capaz de fazer frente ao Exército brasileiro na época seriam necessários forças e recursos que exigiriam anos de acumulação e preparação."
(Luis Mir; A Revolução Impossível (uma história da luta armada da esquerda no Brasil))
Falava-se em "golpe comunista" o tempo todo. Uma semana depois do Comício da Central, os ruralistas, industriais e os setores conservadores da Igreja realizaram a "Marcha da Família com Deus e pela Liberdade", considerado o ápice do movimento de oposição ao governo. Com apoio da imprensa contra a "invasão comunista" a sociedade estava polarizada, como hoje, e de fato uma boa parte da população pedia a intervenção militar.



"Uma das informações mais completas que recebi da intenção do Presidente João Goulart em dar um golpe de estado, com a instituição da República Sindical, foi dada por Adhemar de Barros. Um pouco antes de março de 1964, recebi em minha casa a visita dele, que foi logo me dizendo: 'Marechal, vim agora do Palácio, onde o Jango me convidou para o golpe que vai dar. O golpe é o seguinte: no dia 19 de abril, aniversário do Dr. Getúlio (Vargas), vai haver um comício comemorativo em Belo Horizonte e nele vai haver barulho, para justificar a intervenção no Estado de Minas Gerais, e no dia 1º de maio, data do operariado, será outorgada a Constituição que implantará no Brasil o regime sindicalista.' E disse mais: 'Eu nada podia objetar, não tinha força para lutar e ele disse tudo como assunto já resolvido; espero que as Forças Armadas salvem este Brasil'."
(Marechal Odylio Denys; Ciclo Revolucionário Brasileiro)
Mas um dos mais fortes motivos para a deposição de Goulart vinha de fora: os anos 60 viviam o AUGE da Guerra-Fria. Os Estados Unidos e Rússia jogavam um jogo de WAR onde dividiam o mundo em países de esquerda ou direta. Não havia espaço para neutralidade. Para os EUA Goulart significava uma clara abertura para o comunismo. E a diminuição de remessas de dinheiro pro exterior significava menos renda para uma Guerra que, como vimos, custou caro para a URSS. Estratégica e economicamente nada bom para os EUA, nem para as indústrias brasileiras que dependiam de investimentos estrangeiros. Por isto não podemos duvidar de uma história que foi contada recentemente, em que o Major do Exército, Erimá Pinheiro Moreira, nos conta como testemunhou o Comandante do II Exército em São Paulo, Amaury Kruel, traindo Jango no Golpe de 1964 por seis malas cheias de dólares, em nota novinhas, sacadas de um banco americano e entregues pelo presidente interino da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP).
Enfim, com tantos inimigos dentro e fora do país a situação ficava cada vez mais difícil para Jango. No dia 28 de março irrompe a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais no Rio. Goulart recusa-se a punir os insubmissos concentrados na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, o que provocou a indignação dos oficiais da Marinha. O general Olímpio Mourão Filho inicia então, em 31 de março de 1964, a movimentação de tropas de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro. Este foi o primeiro ato dos militares que culminaria no golpe de estado que depôs o presidente João Goulart.
Na madrugada do dia 1º de abril de 1964 Jango voltou para Porto Alegre e foi para a casa do comandante do 3º Exército, escoltado pela companhia de guarda. Reuniu-se com Leonel Brizola e, após ficar sabendo de uma série de más notícias, teve uma crise de choro. Brizola sugeriu um novo movimento de resistência, mas Goulart não acatou para evitar "derramamento de sangue" (uma guerra civil). Aconselhado por Assis Brasil, Jango traçou o caminho de fuga do Rio Grande do Sul e escreveu uma nota ao governo uruguaio pedindo asilo. No dia 2 de abril o Congresso Nacional declarou a vacância de João Goulart no cargo de presidente, entregando o cargo de chefe da nação ao presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. No dia 10 de abril João Goulart teve seus direitos políticos cassados por 10 anos, após a publicação do Ato Institucional Número Um (AI-1).
"Assim, pelo seu caráter contra-revolucionário, o golpe de Estado antinacional e antipopular que derrubou Goulart não se conteria nos limites formais de uma legalidade já estuprada. E Castelo Branco emergiu da sombra como o candidato do governo invisível à Presidência da República, levando ao Poder a UDN e os oficiais da Cruzada Democrática, cujos desígnios ditatoriais o suicídio de Vargas, ao acender a fúria popular, retardou por dez anos."
(Moniz Bandeira; "O Governo João Goulart - As lutas sociais no Brasil").

João Goulart morreu em 1976 (mesmo ano de Kubitschek), vítima de um controverso ataque cardíaco, no município argentino de Mercedes. Em uma entrevista à Folha de S. Paulo, um ex-agente do serviço secreto uruguaio chamado Mario Neira Barreiro afirmou ter participado da Operação Escorpião, que teria resultado no envenenamento do ex-presidente.

Por razões óbvias, os militares chamam o movimento que depôs Jango de "Revolução Redentora". Mas na história brasileira o movimento de março de 1964 ficará para sempre marcado como o "Golpe Militar".
"Eram, mais ou menos, 13 horas da tarde quando eu almoçava no restaurante dos estudantes (Calabouço), próximo ao Aeroporto Santos Dumont. Em dado momento, um estudante que ouvia seu rádio de pilha subiu em uma mesa e gritou: Está havendo um golpe no País! O Exército está fazendo deslocamento de tropas em Minas e em São Paulo ! Todos pararam de almoçar, discursos foram feitos, informações truncadas eram ouvidas nas estações de rádio e os estudantes resolveram fazer uma caminhada até a Cinelândia, para lá convocar a população para um comício relâmpago. Cerca de 500 estudantes se deslocaram pela Av. Beira Mar e Rua Santa Luzia convocando a população para se juntarem a nós. Reunimos alguns milhares de pessoas na Cinelândia, onde diversos discursos contra o "suposto" golpe foram realizados. 
 
Em menos de uma hora apareceram vários veículos da Polícia Militar cujos soldados passaram a nos atacar com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, as quais eram por nós devolvidas contra os PMs. E assim ficou a "batalha" por mais de uma hora. Nem um tiro, sequer, foi feito pelos soldados da PM. Um grande número de Oficiais do Exército a tudo assistiam, das janelas do prédio do Clube Militar, na esquina da Rua Santa Luzia com Av. Rio Branco, sem nada fazerem. As notícias que vinham de algumas emissoras de rádio diziam que o Exército, no Rio de Janeiro, estava ao lado da legalidade, do Presidente da República. Foi quando, com base nessas informações, por volta das 16 horas, os estudantes ao avistarem os carros de combate do Exército se deslocando pela Rio Branco em direção à Cinelândia, deixaram a "batalha" contra os PMs e correram para receber o Exército com ovação e palmas. Que decepção! Os soldados desciam dos carros de combate e, com seu mosquetões e metralhadoras portáteis, dispararam, covardemente, contra nós, estudantes e trabalhadores. Passamos a correr à procura de abrigo. 
 
Eu e um grupo de estudantes subimos as escadarias da Biblioteca Nacional para procurar abrigo em seu interior sob uma saraivada de balas pelas costas. Quatro colegas meus foram atingidos e morreram na escadaria da Biblioteca Nacional. Permaneci escondido em algum local no 2º andar até altas horas da noite. De uma das janelas da Biblioteca, vi quando uns Soldados e Oficiais do Exército se dirigiram às escadarias e recolheram os corpos dos 4 estudantes mortos. Quando tudo já estava calmo, a Cinelândia deserta, desci e fui para casa. Devia ser em torno de 23 ou 24 horas da noite."
(José Emílio Gomes)

E este foi o começo do Regime Militar no Brasil. Mas o pior ainda viria, 4 anos após, com o Ato Institucional Número Cinco (AI-5).

Continua...

Referência:
Instituto João Goulart;
Wikipedia: João Goulart;
Almanaque da Folha;
31 de Março de 1964: Contribuição ao Painel do Clube Militar (por Aimar Baptista da Silva)




Fonte : http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2014/11/ditadura_militar.html

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Evite consumir alimentos fortificados ou enriquecidos! Dr. Lair Ribeiro


Alimentos enriquecidos com cálcio, ferro. zinco, magnésio e outros minerais e vitaminas podem ser mais prejudiciais do que consumir o alimento tradicional devido a sua razão molar incorreta,

A grande maioria dos produtos enriquecidos com Ferro e Zinco não respeita a relação molar adequada.

Tomar Cálcio isolado é prejudicial, tomar isoladamente Cálcio aumenta a incidência de fraturas no quadril.

Ferro metálico não é a mesma coisa que ferro orgânico.

Alimentos enriquecidos ou fortificados consistem num alimento que sofreu uma adição de nutrientes essenciais com a finalidade de reforçar o valor nutritivo da alimentação com o uso desse alimento.

Ácido pteroil-monoglutâmico é a única forma termo resistente do ácido fólico.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A REVOLUÇÃO RUSSA

Neste exato momento muito se fala sobre ameaça do Comunismo, golpe, Ditadura Militar, mas pouco se sabe sobre a história. Não porque não haja fontes de informação, mas porque temos a tendência a sermos preguiçosos e a ficar limitados a um só lado da informação. Vejo isso com grande preocupação, pois todos estão cansados de saber que quando você controla a fonte de informação você controla o pensamento de um povo. É assim na China, Coréia do Norte, Cuba e, mais recentemente, Venezuela. Se no Brasil hoje não vivemos uma censura, como nos tempos da Ditadura Militar, o que temos são "currais de informação". Manadas de pessoas que por vontade própria só lêem notícias de um único ponto de vista (sejam elas de Direita ou Esquerda).

Foi pensando nessa polarização idiota que está ocorrendo no Brasil que me veio a idéia de fazer resumos mais detalhados do que foram o Comunismo e a Ditadura Militar.
Começarei com um resumo da história da Revolução Comunista na Rússia. Não está completa (a história mesmo tem muitos meandros) mas servirá para entender um pouco melhor do que você aprenderia na escola (a superficialidade do que encontrei em português chegou a me chocar):


REVOLUÇÃO RUSSA
Estamos nos últimos anos da I guerra mundial. Inglaterra, França e Russia se enfrentaram numa guerra de Impérios. Lenin, no seu exílio em Zurique, acreditava que a Rússia estava sendo usada como uma ferramenta dos imperialistas franceses e britânicos na Primeira Guerra Mundial, e que a sua participação no conflito foi a mando desses interesses. A Rússia vinha lutando internamente há décadas pra sair de uma economia/política basicamente feudal pra uma industrial, como seus pares. Como não tinha infra-estrutura, aceitou a vinda de estrangeiros para a construção de fábricas e a exploração de matérias-primas.

Em fevereiro de 1917, manifestações populares na Rússia provocadas pelos problemas econômicos na guerra forçou o czar Nicolau II a abdicar. A monarquia foi substituída por uma relação difícil entre o Governo Provisório Russo, composto de figuras parlamentares socialistas e, do outro lado, uma matriz de Sovietes: conselhos operários eleitos diretamente pelos trabalhadores, soldados e camponeses. É importante dizer que os Sovietes (ou Comunas) não foram criados legalmente: Foram originalmente organizações grevistas de trabalhadores que, com o tempo, foram incorporando mais e mais pessoas. Faziam protestos nas ruas contra os problemas na economia e foram ficando cada vez mais revoltados. Foram agregando filósofos, sociólogos e formando um poder informal que não poderia mais ser ignorado.

O maior e mais influente era o Soviete de Petrogrado. Como eles eram compostos de trabalhadores, possuíam controle de fato (e não de Direito) sobre estradas de ferro, telégrafos, mantimentos e outras infraestruturas. Isso forçou o Governo Provisório Russo a negociar, e a ceder cada vez mais poder ao Soviete de Petrogrado, no que a princípio foi um governo compartilhado (Havia o executivo e dentro dele o chamado "Ispolkom", ou seja, um comitê executivo formado por membros apontados pelos Sovietes).

Também tínhamos mini-sovietes dentro das fábricas. Com a crise, os proprietários abandonaram suas fábricas, ameaçando com o desemprego milhares de operários. A reação dos operários foi ocupar as fábricas para garantir a continuidade da produção. Para organizar a produção e gerir a administração foram constituídos os comitês de fábricas (ou sovietes de fábrica), formados por delegados eleitos pelos trabalhadores e com mandatos revogáveis a qualquer momento, significando que, se algum dos delegados não cumprisse com as responsabilidades assumidas, poderia ser destituído pelos demais trabalhadores.

Dessa forma, os operários, através de seus comitês, exerciam o poder no interior das fábricas. Esse exercício do poder ficou conhecido como controle operário da produção.

Os trabalhadores estavam divididos basicamente em dois partidos: De um lado os Mensheviks (que em russo significa "minoria" mas eram maioria nos sovietes) que eram Marxistas moderados e colaboravam com o modelo capitalista em busca de fazer uma revolução "controlada", dentro das leis, e mais próximas da filosofia de Karl Marx. E do outro lado os Bolsheviks ("maioria" em russo) que acreditavam na luta armada e na revolução direta, sem etapas. Lenin fazia parte dos Bolsheviks, e foi ele que cunhou o lema "Ditadura do Proletariado". Ironicamente todos os dois partidos se chamavam "Partido Russo Social-Democrático dos trabalhadores", embora um deles lutasse abertamente por uma ditadura.

Os Mensheviks eram maioria no Soviete de Petrogrado. Eles estavam divididos entre apoiar ou não a guerra. Já o Bolshevik, contando com a direção de Lenin (já de volta do exílio), ficou decidido a ser contra a guerra (para se focar na revolução interna). Assim, com o desenrolar da guerra e seu agravamento econômico, os Mensheviks foram perdendo cada vez mais espaço dentro do Sovietes para os Bolsheviks.

Em junho de 1917, sentindo que o momento era propício, os Bolsheviks começam uma forte campanha de propaganda, com 100.000 cópias do Pravda impressos ao dia e 350.000 folhetos por mês, onde eles fazem ataques ao governo que eles chamam de "burgueses", pedem o fim da guerra e o controle do poder pelos trabalhadores. Em julho de 1917 eles organizam vários protestos pacíficos contra o governo. Em Petrogrado eles levam 500.000 pessoas às ruas, pedindo o fim da guerra e brandindo cartazes com o lema "Paz, Terra e Pão: todo poder aos sovietes", onde "paz" é a saída da Rússia da guerra, "pão" é comida para todos e "terra" a reforma agrária, com o confisco de propriedades privadas para serem distribuídas pelo povo. Isso é visto (obviamente) como uma tentativa de golpe, e o Governo provisório coloca os militares para atirar contra o povo nas ruas. 700 morrem.

O governo fecha os jornais. Vários Bolsheviks são presos, mas graças à influência do Soviete de Petrograd são liberados por meio de fiança ou "bom comportamento". Lênin consegue fugir para a Finlândia.
O ódio ao governo cresce. Greve e protestos acontecem nas principais cidades. E essa tentativa de golpe acaba influenciando positivamente os Bolsheviks nas urnas. Um aumento de 50% nos votos em 3 meses!


(=== Abro um parêntese pra alertar os que gostam de história para o paralelo da ascenção do partido dos trabalhadores russos - Bolshevik com o do Partido dos Trabalhadores Alemão - NSDAP. Ambos se beneficiaram de conturbações econômicas e sociais internas pra crescer, num discurso radical de ódio contra os "burgueses" e uma máquina de propaganda azeitada, ambos tentaram um golpe pacífico contras as instituições democráticas que foram contidos à bala e fracassaram, tiveram membros presos e, assustadoramente, conseguiram com isso passar a idéia de heróis do povo e atraíram ainda mais admiradores do que tinham antes! ===)


Assim os Bolsheviks tinham agora a maioria do Soviete de Petrogrado e vários outros. Em setembro de 1917, Leon Trotsky, líder dos Bolsheviks (e que tinha sido preso no golpe frustrado), foi apontado como líder representante dos trabalhadores no Soviete de Petrogrado. Ele iria dirigir a transformação dos Sovietes em um complemento do partido Bolsheviks, passando por cima da autoridade do Ispolkom e dos outros partidos e membros dos Sovietes, como os Mensheviks. Os mini-sovietes (o controle operário da produção) também ganharam força, conseguindo adotar a jornada de trabalho de 8 horas em São Petersburgo e realizar um congresso nacional de comitês de fábrica em outubro, aglutinando em sua defesa, além dos trabalhadores do chão de fábrica envolvidos, forças políticas ligadas aos anarquistas e aos bolcheviques. Estes últimos, inclusive, utilizaram como lema para angariar o apoio das massas trabalhadoras a defesa do controle operário da produção como via de transformação da organização da sociedade.

Nesta maravilhosa "democracia" ditatorial Bolshevik (que seria implantada no ano seguinte) estariam impedidos de votar "aqueles que empregam outros para lucrar, aqueles que vivem de recursos não-derivados do seu trabalho direto (como donos de terra, indústria, etc), homens de negócio, agentes, padres e monges de todas as denominações, ex-empregados de polícia (?), membros da dinastia Romanov, lunáticos e criminosos".

Em 12 outubro de 1917 a Alemanha, enfrentando pouca oposição Russa, consegue chegar perto de Petrogrado. Aconselhado por militares, o governo quer se mudar para Moscou, mas o Soviete se nega. A maioria decide por criar uma milícia armada de trabalhadores para defender Petrogrado das ameaças militares E DOMÉSTICAS. Os Mensheviks se opoem, mas o Ispolkom aprova a resolução e cria o "Comitê Revolucionário Militar" (Milrevcom).


(=== Em mais uma similaridade, está criada aí a milícia armada do partido dos trabalhadores russos, essencial para a tomada e manutenção do poder, assim como existiu a milícia do partido dos trabalhadores alemães, a SA, e a milícia venezuelana, coordenada pelo Ministério do Poder Popular para as Comunas, que controla os chamados "colectivos" ou "Escuadrones de la Muerte". E por falar na milícia venezuelana, soube que esta semana está aqui no Brasil Elias Jauá Milano, vice-presidente e ministro desse mesmo "Poder Popular para Comunas", ensinando ao MST como agir na "revolução". Em sua mala de viagem, trazida por sua babá, além de uma arma também tinha vários manuais, como um que trata da "derrota permanente do inimigo" e cartilhas mencionando estratégias do Partido Comunista Chinês; uma delas ensina como "marcar e neutralizar o inimigo" e "como enfrentar crises e conflitos reais". =====)

Com a legalização da milícia com o nome pomposo de "militar", eles decidem - sem direito algum - assumir o controle das tropas regulares do exército em Petrogrado. Um comandante se recusa a entregar suas tropas, e é logo acusado de ser "contra-revolucionário". Assim como ocorreria na Alemanha, a milícia acaba dominando o Exército.

Em novembro de 1917 tivemos a votação para a Assembléia Constituinte Russa, que iria suceder o Governo provisório de forma democrática, através dos votos nas urnas. Inicialmente o partido Bolshevik apóia a Assembléia, mas após o resultado....

Dentro dos Sovietes (que eram influentes nas grandes cidades) o poder estava dividido basicamente entre Bolsheviks e Mensheviks, já que eram os partidos os trabalhadores. Mas na Rússia como um todo havia outros partidos, que viriam a compor a Assembléia Constituinte Russa. E o mais popular nas regiões rurais, que constituíam a maioria da população Russa, era o Partido Revolucionário Socialista. Acontece que esse partido (que é visto pelos Bolsheviks como de direita, graças ao alinhamento com o governo provisório) teve a maioria dos votos, devido ao apoio da população rural, elegendo para a Assembléia 370 deputados (os Bolsheviks elegeram 175 e os Mensheviks apenas 16). O que Lenin, esse homem admirado como herói e intelectual, disse do resultado das urnas?

Já de volta do exílio, em seu ensaio "Teses Sobre a Assembleia Constituinte" ele argumenta que a República dos Sovietes "é uma forma mais elevada de democracia que a tradicional república burguesa com a Assembléia Constituinte. Os interesses da revolução de Outubro de 1917 permanecem maiores que os direitos formais da Assembléia Constituinte. Cada tentativa direta ou indireta de reconhecer a Assembléia Constituinte do ponto de vista legal e formal - dentro do contexto ordinário da democracia burguesa e sem olhar a luta de classes e a guerra civil - seria uma traição à causa proletariada e a adoção do ponto de vista burguês".


(=== Fantástico, não? Antes das eleições os Bolsheviks apóiam a Assembléia. Ao perceber que não têm mais o MONOPÓLIO do poder (como tinham nos Sovietes) Lenin usa essa baboseira de "burguesia" (uma tática perversa de designar tudo o que você é contra com um apelido, como aliás a esquerda brasileira faz muito bem) pra desviar a atenção do fato de que foi a população RURAL (e não burgueses) que elegeu a maioria dos seus representantes, e diz diretamente que sua revolução tem prioridade sobre os votos do POVO e que os Sovietes têm prioridade sobre a DEMOCRACIA. ====)

Então Lenin propõe que sejam feitas novas eleições (???) e que nesse intervalo um governo exclusivamente dos Sovietes seja aceito como provisório (que meigo, não?). A coisa era tão bizarra que nem mesmo a maioria dos membros dos Bolsheviks aceitaram a proposta. Mas durante o mês de dezembro conseguiram convencer a maioria. Enquanto isso o Partido Revolucionário Socialista se racha entre direita e esquerda. A minoria de esquerda se junta em apoio aos Bolsheviks.

Ainda em novembro Lênin decide que o controle operário deve estar ligado à fiscalização das ações e da contabilidade das empresas pelos trabalhadores, e não à produção e administração, ficando estas funções a cargo dos especialistas técnicos, como engenheiros e administradores. Com essa perspectiva, o novo Estado publicou o decreto do controle operário da produção, criando o Conselho do Controle Operário de toda a Rússia, responsável pela gestão das indústrias. Mas a participação dos trabalhadores foi limitada, sendo que os especialistas técnicos ocuparam a maior parte dos postos existentes, passando a tomar a maioria das decisões.

Para conseguir mais apoio para o golpe de Estado os Bolsheviks escrevem a "Declaração do direito nacional dos povos", onde se comprometem a acabar com a dominação exercida pelo governo russo sobre regiões tais como a Finlândia, a Geórgia e a Armênia. A liberdade desses dois últimos países não durou mais que 4 anos: foram anexados pelo novo império Bolshevik, e sofreram expurgos e execuções nas mãos de Stalin. A Finlândia (que inclusive mandou tropas armadas para apoiar o golpe) foi invadida em 1939, numa decisão que até hoje Vladmir Putin acha justa.

Em 18 de janeiro de 1918 uma multidão se reúne em frente à Assembléia de Petrogrado para protestar contra a tomada de poder dos Bolshevik. Mas não são muitos: alguns soldados e trabalhadores, estudantes de classe-média e profissionais liberais. Numa inversão de papéis, agora são os militares leais aos Bolsheviks que atiram contra a multidão, que se dispersa.
O Bolshevik Ivan Skvortsov-Stepanov, em um discurso aprovado por Lenin, explica a oposição à "democracia burguesa":

"Como vocês podem adotar tal conceito de 'vontade do povo'? Para um Marxista a noção de 'o povo' é inconcebível: o povo não age como uma unidade. Isso é uma mera ficção, e essa ficção é alimentada pelas classes dominantes. Está tudo acabado entre nós. Vocês pertencem a um mundo, com os cadetes do exército e a burguesia, e nós a um outro mundo, com a população rural e os trabalhadores."


(=== Qualquer semelhança com o discurso de "nós contra eles" não é mera coincidência. ====)

Em 19 de janeiro de 1918, primeiro dia dos trabalhos da Assembléia eleita, um membro de direita do Partido Revolucionário Socialista é eleito como presidente da Casa por maioria. A proposta do partido Bolshevik de novas eleições é rejeitada por 237 votos a 136. É o sinal para que os Bolsheviks (com apoio dos Anarquistas e a ala esquerda do Partido Revolucionário Socialista) dêem o golpe, reúnam seus soldados e declarem a Assembléia dissolvida. Lenin deixa a Assembléia e instrui seus soldados a não usarem de violência, apenas esperar até que os outros deputados saiam da Assembléia. Os deputados ficaram até às 4 da manhã. No outro dia já não puderam mais entrar. E assim termina a curta história da democracia Russa.
O povo russo, apático, alienado e cansado de uma sucessão de governos pouco populares, não se manifestou em defesa da Democracia. A política era algo distante e complicada demais para mobilizar as zonas rurais.

Março de 1918: Foi adotada uma forma de administração das indústrias em que a direção ficava nas mãos de um único administrador, subordinando os comitês de fábrica a ele. Os administradores eram nomeados pelo Estado e não mais eleitos pelos trabalhadores, retirando, dessa forma, o poder que anteriormente era exercido pelos trabalhadores no interior dessas empresas. Com a nomeação de um administrador único que seria apenas fiscalizado, os trabalhadores deixaram de decidir sobre a gestão da empresa. Com o início da Guerra Civil e a militarização da produção industrial subsequente, o controle operário foi abandonado, extinguindo, dessa forma, os comitês de fábrica.

O que acontece depois? Os antigos aliados dos Bolsheviks, os Anarquistas e os esquerdistas do Partido Revolucionário Socialista, se juntaram a outros partidos políticos na tentativa de depor o governo ditatorial bolchevique, que começa assim a perseguição e a prisão de todos os anti-Bolsheviks, e o início de uma ditadura exclusivamente Bolshevik.

E assim veremos violência, violência e mais violência (como uma sangrenta guerra civil, esmagamento dos que lutavam por eleições livres em Kronstadt, assassinato da família real, um dos maiores genocídios já registrados na humanidade, o Holomodor na Ucrânia, etc. etc). Um imperialismo que não terminou mesmo hoje, décadas após a queda da União Soviética, onde a Rússia continua ameaçando a Ucrânia.

Do meu estudo que, repito, não é dos mais aprofundados mas também não é raso, percebo que, sob o comando direto de Lenin o partido Bolshevik mentiu, manipulou, fez alianças quando era vantajoso, traiu seus aliados, lutou em nome dos trabalhadores e depois tirou o poder dos trabalhadores, lutou em nome dos camponeses mas ignorou seus votos nas urnas, fechou uma Assembléia que antes apoiava, falou em paz mas fez guerra, dividiu o país entre burgueses e trabalhadores e depois apelidou tudo o que não concordava de "burguês". E tudo isso sem nem mencionarmos Stalin, um dos maiores genocidas da história recente, superando até mesmo Hitler, e só atrás de Mao-Tsé-Tung, outro que matou em nome do Comunismo.
Me espanta que hajam pessoas que pensem que estes são heróis. Ou melhor, não me espanto não. A afinidade com um ou outros ídolos vai do caráter de cada um.

Referências:

Wikipedia BR: Lenin
Brasilescola: Controle Operário na Rússia
Wikipedia: Russian Constituent Assembly
Wikipedia: Soviet (council)
Wikipedia: Leon Trotsky
Wikipedia: July Days
Wikipedia: October Revolution


FONTE : http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2014/11/a_revolucao_russa.html